Cuidado com os santos!

Texto de P. Alcides Marques, CP

A nossa espiritualidade católica está muito marcada pela presença dos santos e santas de Deus. Falamos agora de santos em seu sentido convencional: os santos canonizados. Já é tradicional, pensar a nossa ligação com eles em três sentidos: a intercessão (quando pedimos algo por intermédio deles), a devoção (quando cultivamos práticas religiosas relacionadas a eles) e a imitação (quando buscamos em suas vidas uma inspiração para as nossas próprias vidas). Sem dúvida, a maior riqueza está no terceiro sentido: agir, se comportar, ser cristão, inspirados em seus exemplos de vida. No entanto, a nossa tendência de idealização dos mesmos pode mais prejudicar do que ajudar.

Nos dias atuais, sobretudo pelo forte acento cristológico do Concílio Vaticano II e da prática eclesial subsequente, o recurso da intercessão dos santos tem diminuído. Certamente, podemos entender esta prática (da intercessão) em sentido cristológico. O nosso intercessor único (diante de Deus Pai) é sempre Jesus Cristo; a intercessão dos santos deve ser entendida como parte da “comunhão dos santos”. Da mesma forma que rezamos pelas pessoas e que elas rezam por nós, podemos também rezar pelos falecidos e pedir aos santos por nós. Mas tudo isso, direcionado ao nosso único intercessor Jesus Cristo. Pensemos no episódio da cura do servo do Centurião: foi ele quem pediu um benefício para outra pessoa e foi atendido (cf. Lc 7,10-10). Pensemos também naqueles quatro homens que trouxeram um paralítico, passando pelo telhado, até Jesus (cf. Mc 2,1-11): o evangelista Marcos diz que “Jesus, vendo a fé deles (no plural) disse…”. O centurião, os amigos do paralítico foram intercessores para Jesus. Quem curou foi Jesus, mas eles levaram até Jesus.

Já o segundo sentido, da devoção, ainda se mantém. A questão não está evidentemente na devoção, mas no devocionalismo, ou seja, num conjunto demasiado de práticas religiosas sem muito sentido. O que precisamos urgentemente é valorizar mais uma espiritualidade e religiosidade centrada em Jesus Cristo e no Jesus Cristo revelado na Sagrada Escritura. A devoção aos santos deve ser mantida, mas não como parte dominante da religiosidade.

O terceiro sentido, da imitação, é o mais interessante. Ele tem um componente bíblico. O apóstolo São Paulo enquadra bem esta questão quando pede que os cristãos “sejam meus imitadores, como eu sou de Cristo” (1Cor 11,1). Não há nenhum problema em imitar os santos, naquilo que eles imitam de Jesus Cristo. Não vamos aqui entrar na questão da palavra imitação em si mesma. Basta considerar uma “imitação criativa”, pois os tempos e lugares são outros.

O problema maior está em nossa tendência de idealização. Você conhece algum defeito de Santa Rita ou de Santo Antônio ou de São Sebastião? Sabe porque você não conhece? Porque eles são santos canonizados e, se são canonizados, é porque não tem defeitos. E assim criamos os modelos de cristãos; os cristãos exemplares. E, com isso, alguma coisa não se encaixa; pois quando olhamos para dentro de nós, enxergamos defeitos, incoerências, pecados… coisas que não vemos nos santos. E assim acabamos desenvolvendo uma espiritualidade de fracassados e não de vitoriosos (em Cristo), como nos ensina São João: “está é a vitória que vence o mundo: a nossa fé” (1Jo 5,4).

Observe com calma o Antigo Testamento. O povo de Israel não tinha santos (canonizados), tinha referenciais na fé. Os patriarcas e as matriarcas tinham também seus defeitos e estes não eram escondidos na Escritura. Eles eram referencias de fé para o povo, inclusive em seus defeitos. Veja o caso do adultério do rei Davi (cf. 2Sm 11). Mas, mesmo assim, Jesus Cristo será chamado de “filho de Davi” (cf. Mc 10,47).

Vamos então fazer um ajuste em nossa espiritualidade? Os santos são também referencias para nós em muitos aspectos da vida, mas vamos admitir que eles também tiveram os seus defeitos. Isso não apaga de modo algum a sua santidade. Ao contrário, a torna mais evidente.