Misericórdia: ajudar quem precisa

Texto de P. Alcides Marques, CP

É a quinta bem-aventurança. A palavra misericórdia é a soma de “cordia, cardis” (coração) e miséria. Poderíamos traduzir por: ter o coração voltado para a dor, a miséria, o sofrimento do outro. E isso exatamente no momento em que o outro não tem alternativa: ou a vida (inteira, plena) através de nós ou a morte (vida pela metade, sobrevida, não vida) sem nós. Quando estamos numa situação de igualdade com outra pessoa, temos todo o direito de reclamar justiça. No entanto, quando o outro está numa situação de inferioridade, deve prevalecer a misericórdia. Deus é justo e misericordioso. Mas a misericórdia sempre prevalece.

A cena bíblia da mulher adultera (Jo 8, 1-11) é bastante ilustrativa. Os fariseus, apegados à Lei, exigiam a justiça. Jesus, deixando-se conduzir pelo amor, fez prevalecer a misericórdia. Por que os fariseus, para Jesus, não tinham o direito de negar a misericórdia? Porque os mesmos também precisavam da mesma. “Atire a primeira pedra  não tem pecado”. Jesus, ao contrário, deixou-se guiar pela misericórdia. Mas sem se descuidar da justiça: “não tornes a pecar”.

O Novo Testamento fala da misericórdia material, corporal. A parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 25-37) é um exemplo desse amor misericordioso. Quando o fariseu pergunta: quem é o meu próximo? Que tipo de pessoa é digno do meu amor? Jesus responde com a parábola. Um homem caiu em mãos de ladrões e foi roubado, agredido, deixado semimorto. Estava no chão, não tinha como sair de seu sofrimento. Passaram um Sacerdote e um Levita e nada fizeram, talvez porque não queriam se contaminar para o culto. Já o Samaritano, um herege, deixou-se guiar pela compaixão e ajudou o homem ferido. Jesus então pergunta qual dos três se fez próximo daquele homem. Para Jesus, portanto, o problema não é quem é o meu próximo, mas de quem eu me aproximo. E a resposta deles não poderia ser outra: “aquele que usou de misericórdia”. Vai e faze o mesmo, diz Jesus.

Mas existe também a misericórdia espiritual: para com o pecador. Essa misericórdia se traduz no perdão. Perdoar é ir além da justiça e deixar-se conduzir pela misericórdia. Diante da pergunta de Pedro sobre quantas vezes (sete? = muitas) se deve perdoar o irmão, Jesus responde que diante do desafio do perdão não se deve pensar em lei (setenta vezes sete! = sempre), mas em misericórdia, compaixão; e conta a parábola de um homem que devia uma grande quantidade de dinheiro para o seu patrão (Mt 18,21-35) e quando solicitou compaixão do mesmo, já que não tinha como pagar sua dívida, obteve o perdão. Mas, logo a seguir aquele mesmo homem não teve compaixão para perdoar a dívida de outro que lhe devia uma pequena quantidade. O patrão diz: “E você, não devia também ter compaixão do seu companheiro, como eu tive de você?”.

“Porque alcançarão misericórdia”. Devemos sempre lembrar daquilo que dizemos no Pai-Nosso: “Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.