Basta, signore!

Texto de P. Mauro Odorissio, CP

“Basta, Senhor!”. Foi o grito lancinante, quase desesperado de um dos dois colegas quando, em pleno terremoto, víamos já chegada a nossa hora. A algumas dezenas de metros, a torre da nossa igreja de Nápoles, aumentando os estranhos rumores, se estatelava no chão. A nossa vez seria em questão de segundos. A caliça do local, onde estávamos prisioneiros, caía sobre nossas cabeças. Estava chegando a vez das paredes.

No dia 06 de junho de 2012, ao recitarmos as Vésperas, sentimos o mesmo pedido como a sair, agora de nosso peito: “Basta, Senhor!”. Foi o Sl 46(45) que quase nos levou a tanto. Os vs 9-10 assim rezam: “Vinde ver, contemplai os prodígios de Deus e a obra estupenda que fez no universo: reprime as guerras na face da terra, ele quebra os arcos, as lanças destrói, e queima no fogo os escudos e as armas”.

Inevitavelmente recordamos a doce predição do Profeta ao preconizar o tempo messiânico: “Às nações ele dará a sentença, decisão para os povos numerosos: devem fundir suas espadas, fazer bicos de arado, fundir as lanças, para delas fazer foices. Nenhuma nação pegará em armas contra a outra e nunca mais se treinarão para a guerra” (Is 2,4).

Ainda de Isaías, nos recordamos o que é proclamado, precisamente na noite de Natal: “Pois a canga que lhes pesava ao pescoço, a vara que lhes batia nos ombros, o chicote dos capatazes, tudo quebraste como naquele dia de Madiã. Toda bota que marcha com barulho e a farda que se suja de sangue vão para a fogueira, alimento das chamas. Pois nasceu-nos um menino, um filho nos foi dado. O poder de governar está nos seus ombros. Seu nome será Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai para Sempre, Príncipe da Paz” (Is 9,3-5).

Não chegara a sair de nossos lábios o clamor “Basta, Senhor”, quando um como eco antecipado veio ao nosso encontro. E é por isso que aqui estamos refletindo, escrevendo. Sim, como que vindo do céu, ecoou-nos um surdo “Basta!”. Clamor esse, acreditamos, vindo do Senhor e dirigido a todos nós.

Como aceitar um mundo no qual a indústria mais lucrativa é a das armas? E que as duas que a seguem, de imediato, estão intimamente a ela vinculadas: genital e tóxica? E pensar que o nosso Brasil é um dos grandes produtores e exportadores de apetrechos bélicos?

Há semanas, os participantes do curso bíblico oferecido pela Paróquia todas as quintas-feiras, foram brindados com uma profunda aula de nossa ministra e prata da casa, a psicóloga Eliane Araújo. Falou sobre o “perdão”. Teceu comentários sobre a “beneficidade” (perdão pelo neologismo), sobre a riqueza em perdoar, ato humano e humanizador não devidamente considerado. Afirmou que os nossos estudiosos passaram a refletir cientificamente o perdão há menos de cem anos. Quanto tempo perdido! Quanto veneno destruidor, desestruturador abandonado nos corações humanos. E sempre prestes a detonar. Para gaudio e progresso da produção de armas que se tornam cada vez mais letais, mais destruidoras.

Sim! É lícito que clamemos “basta, Signore”. Mas na verdade, devemos acolher o “basta” que vem do céu para cada um de nós. Isso supõe que os corações sejam desarmados, desarmadas sejam nossas famílias, nossa sociedade. Que as armas sejam transformadas em arados, em instrumentos musicais, em bisturis, em pinceis,em batutas. Queas lágrimas cedam lugar aos cânticos festivos, à dança e aos sorrisos de crianças.

Neste momento nos vem à mente uma antiga e querida canção: “Fica sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas, nas mãos que sabem ser generosas”. Que se instale, em nosso mundo, o reinado eterno da paz e do amor!