Agosto, mês do desgosto

Texto de P. Mauro Odorissio, CP

Alguém, passando por problemas num agosto distante, notou que o nome do mês rimava com  desgosto e soltou a expressão acima. Pronto! Outros, também carentes de senso crítico, acataram a sentença, tocaram-na para frente sem testar a afirmação que virou verdade irrefutável! A força da repetição e a homofonia transformaram-na em dogma para os crédulos. Agosto já está chegando ao fim e desejo que tenha sido muito bom para todos.

Poucos sabem que o mês anterior foi chamado de julho por causa do imperador Júlio César. Também César Augusto quis se imortalizar e deixou a sua marca; e o mês seguinte foi nomeado  agosto que, por sinal, é igual aos outros.

Igual, não, pois ele tem suas marcas. Uma delas é a de terem celebrações bastante interessantes. Como todos, começa com o primeiro dia. Só que, 1° de agosto é a data celebrativa da amamentação que marca o coração dos recém nascidos. No dia 4 celebramos o simpático e querido Santo Cura d´Ars, o S. João Maria Vianney, a Transfiguração de Jesus no dia 6, o intrépido e caridoso S. Maximiliano Kolbe, no dia 14 e, a seguir, a Assunção de Maria…

Mas, o que nos motivou a escrever este artigozinho foi, no dia 10, na sacristia, pouco antes da missa, alguém comentar o martírio de S. Estevão: morrer queimando sobre uma grelha.

Refletindo com a comunidade, colocávamos como existem pessoas capazes de torturar o próximo como o Santo foi torturado. No caso, não se sabe onde o fogo era mais candente: o que consumia o corpo do Mártir ou o do ódio que lampejava no coração dos que o levaram à morte. Provavelmente é lenda, mas, se diz que ele, a certa altura teria recomendado: “agora podem virar o meu corpo; essa parte já está assada!”.

Colocamos a seguir, que na última guerra, a aviação nazista bombardeou o bairro Campo Verano, em Roma, onde está a Basílica com o corpo de S. Lourenço. O bombardeio era chamado “tapete”: após a primeira esquadrilha de bombardeiros, surgia outra, lançando bombas onde estavam a fumaça e o pó da destruição anterior levados pelo vento. Assim, nenhum quarteirão ficou em pé. Esse assunto ainda era recordado com lágrimas quando estudávamos em Roma. O ódio é fogo sem chamas visíveis, mas, não menos destruidor.

No sermão interrogamos qual seria o fogo mais ardente, no martírio do Santo: o que consumia o seu corpo, o que destruía os corações assassinos dos seus inimigos, ou o que levava São Lourenço a se deixar imolar por Cristo. Afinal, o Senhor veio trazer o fogo ao mundo e não via a hora de, com ele, inflamar os corações: “Eu vim para incendiar a terra e como gostaria que já estivesse aceso” (Lc 12,49). Sabemos que esse fogo é o do amor revelado, na cruz, por Cristo. Amor que não leva o sofrimento e a morte aos outros, mas, a vida. Amor a ser vivenciado pelos discípulos: “Não existe amor maior do que dar a vida por quem se ama”. E, para que não pairassem dúvidas, apresentou o protótipo do verdadeiro modo de amar: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,12-13).

Encerrando a nossa alocução propusemos, ainda, que naquele dia, em nossa oração pessoal, considerássemos, além do fogo que incandescia a grelha, também o que destruía os corações dos inimigos do Senhor e do Santo, o que inflamava o coração amoroso de S. Lourenço. Mas que pensássemos: não estariam os nossos corações carentes da chama divina, aquecedora, iluminadora e inflamadora que Cristo nos deixou? Como serem por elas inflamados? Sem dúvida, essas interrogações em nossas orações pessoais, seriam uma rica ocasião para bem celebrar o Mártir que nos deixou tão sublime exemplo.

S. Lourenço é representado tendo, ao seu lado, a grelha que ele transformou num altar de imolação, de oblação, de amor a Cristo. É exemplo e incentivo para todos nós.

Constataremos, então, que agosto não é o mês do desgosto se bem aproveitado. Com momentos alegres ou não, nós o transformados em oportunidade de crescimento espiritual. E, em rima capenga e de última hora, apenas para seguir a onda, diríamos que agosto é o mês do bom gosto. e.

Nada de superstição ou de crendice! Mas, que em Cristo e a exemplo de S. Lourenço, saibamos construir a nossa história.