O mal, a sociedade e a pessoa

Texto de P. Alcides Marques, CP

Nos dias de hoje, sabe-se lá por quais motivos, tem prevalecido uma concepção rousseauniana da pessoa humana. O filósofo Jean-Jacques Rosseau entendia o ser humano como naturalmente bom, a sociedade é que o tornava mau. Esse tipo de mentalidade acabou influenciando a nossa pedagogia, tanto a escolar quanto a familiar. Crianças e adolescentes são vistos como seres angelicais, sem erros e pecados. Quando muito são vítimas de uma educação opressora. Professores e pais não sabem mais como se comportar. A palavra “autoridade” ou a expressão “imposição de limites” são vistas como obsoletas, atrasadas. Interessante que o cristianismo não vê a pessoa humana deste jeito.

É certo que o ser humano é naturalmente bom, mas está interiormente marcado pelo mal. Precisamos fazer uma releitura do tema do pecado original para podermos entender melhor que todo ser humano está marcado pelo mal e que deve aprender a conviver com o mesmo todos os dias de sua vida.

O pecado original não é um pecado pessoal (de Adão) que está sendo imputado a todo ser humano que vem a este mundo. O pecado original é parte da condição humana, ou seja, pelo fato do pecado ter se instalado no mundo, todos os seres humanos participam das suas consequências. Se não fosse pela Redenção de Cristo, todos nós estaríamos irremediavelmente sob o domínio do mal. A Redenção nos libertou do domínio do mal, mas as consequências do mal permanecem em nós. O mal não nos domina, mas ele está presente em nós. “Não faço o bem que quero, mas faço o mal que não quero” (Rom 7,17).

Um bom exemplo da presença do mal vem de uma analogia com os “alcoólicos anônimos” – a tese central do grupo é que o alcoolismo é uma doença (um mal). Por isso mesmo, o passo essencial para a cura é o reconhecimento dessa doença. É comum constatar que pessoas viciadas em bebida não aceitam que são viciadas. Os A.A. trabalham para que as pessoas viciadas assumam a sua condição de doentes para assim orientar suas vidas para que esta doença não tenha nenhum efeito maléfico, como “evitar o primeiro gole”. A filosofia dos A.A. entende que a doença (alcoolismo) vai sempre estar presente na pessoa, mas a pessoa pode fazer com que a mesma não tenha nenhum efeito nocivo. É assim que devemos entender a presença do mal em nós: ele vai estar sempre presente, mas, na medida em que reconhecemos sua presença em nós e nos deixamos conduzir pelo impulso do Espírito Santo, ele (o mal) não vai ter a última palavra. Ao contrário, quando negamos a presença do mal em nós é que ele vai se manifestar cada vez mais forte.

Não é a sociedade que nos torna maus, mas a sociedade pode alimentar o nosso lado mau. A estrutura social que nos envolve pode ser um foco alimentador do mal. Se nós vivemos num ambiente de fofocas, seremos fofoqueiros. Se a nossa geladeira viver apinhada de doces, não resistiremos aos mesmos. Se ficarmos assistindo filmes de violência, seremos violentos e assim por diante. Uma estrutura perversa alimenta o nosso lado perverso. Não adianta dizer que não. As coisas não são simplesmente do jeito que queremos. Não basta simplesmente querer ser bom, é preciso viver num ambiente bom. “Minha contribuição foi pesquisar a fundo quais ambientes e situações estimulam de forma decisiva a expressão desse lado ruim de cada um. Sim as circunstâncias têm um peso determinante para que o mal viceje. Submetida a forte pressão, muito pouca gente é capaz de resistir e se manter no espectro do bem” (Philip Zimbardo, Veja, 21/08/2013).

Mas podemos também pensar em “estruturas de dom”, que são estruturas que favorecem a fraternidade e a prática do bem. Os decoradores de ambiente sabem que um ambiente sereno, leve produz nas pessoas uma sensação de paz e serenidade. Os consultórios médicos e de dentistas são montados neste clima. O que precisamos é ampliar este conceito de criação de estruturas de dom. Experimente assistir bons filmes, ler bons livros, fugir de ambientes negativos e degradantes. Ambientes bons favorecem a emergência do lado bom das pessoas. Já pensou nisso? Que tal criar mais ambientes de fraternidade?