A entrevista do papa: mudou ou não?

Texto de P. Alcides Marques, CP

O papa Francisco deu uma entrevista – em três dias diferentes: 19, 23 e 29 de agosto de 2013 – ao padre Antonio Spadaro, da revista “Civiltà Cattolica”, revista internacional da Companhia de Jesus (Jesuítas). Imediatamente, algumas respostas do papa ganharam uma enorme repercussão em órgãos de imprensa de todo o mundo. Mas precisamos ficar alertas para não cairmos no jogo de interesses de certos setores da cultura dominante. Nunca é pouco lembrar a famosa advertência de São Paulo aos Tessalonicenses: “examinai tudo e ficai com o que é bom” (1 Tes 5,21).

Antonio Spadaro alerta, no início do seu relatório, que não é do estilo do papa responder perguntas de uma vez por todas. Diz textualmente: “Pouco antes da audiência que concedeu aos jesuítas da Civiltà Cattolica’, o Papa tinha-me falado da sua grande dificuldade em dar entrevistas. Tinha-me dito que prefere pensar, mais do que dar respostas imediatas em entrevistas de momento. Sente que as respostas corretas lhe vêm depois de ter dado a primeira resposta” . Aqui está a chave para uma leitura mais realista das afirmações do papa: ele está falando em uma entrevista e de maneira alguma pretende dizer a última palavra. O seu objetivo parece mais ser o de levar os cristãos católicos a refletir sobre questões que não estão acostumados a refletir. O papa não pretende provocar nenhuma mudança nos princípios e valores da Igreja, o que ele pretende é nos levar a uma reflexão sobre as nossas atitudes concretas diante das pessoas concretas.

Comecemos pela questão do “pecador”. Quando não corretamente entendida, a mesma pode ser utilizada como “arma” contra os cristãos. O papa Francisco assim se expressou quando foi instigado a se definir.  A pergunta que lhe foi feita foi a seguinte: “Quem é Mário Jorge Bergoglio?”. O papa deu a seguinte resposta: “Não sei qual possa ser a definição mais correta… Eu sou um pecador. Esta é a melhor definição. E não é um modo de dizer, um gênero literário. Sou um pecador. (…) Sim, posso talvez dizer que sou um pouco astuto, sei mover-me, mas é verdade que sou também um pouco ingênuo. Sim, mas a síntese melhor, aquela que me vem mais de dentro e que sinto mais verdadeira, é exatamente esta: ‘Sou um pecador para quem o Senhor olhou’. E repete: Sou alguém que é olhado pelo Senhor”. Voltando à questão. O papa não está afirmando que é uma pessoa cheia de pecados pessoais ou alguém que não tem “moral” para orientar, corrigir, exortar as pessoas. O que se destaca é a condição pecadora, inerente a todo ser humano. Não é o pecado “x” ou “y”, mas o reconhecimento de que se é pecador. E esse reconhecimento é a condição para se definir como alguém que é amado por Deus, que é destinatário de sua misericórdia. Essa é a condição de todo o gênero humano.

O papa aponta um caminho “diferente” de evangelização: ir-ao-encontro. Nós católicos não estamos acostumados a ir ao encontro das pessoas. Nós esperamos que elas venham até nós. Ir ao encontro quer dizer respeitar os outros, o seu mundo, os seus valores e levar o que temos de mais importante: Jesus Cristo. Se ficarmos julgando as pessoas, não vai sobrar quase ninguém para ser amado. Estaremos reduzindo o cristianismo ao farisaísmo.

É isso o que o papa pretende levar os católicos a refletir. Ele não quer dizer que a Igreja deve mudar os seus ensinamentos, os seus princípios e valores. O que ele está afirmando é que devemos priorizar o amor, pois esta é a prioridade de Cristo. Francisco disse, citando explicitamente os homossexuais: “A religião tem o direito de exprimir a própria opinião para o serviço das pessoas, mas Deus, na criação, tornou-nos livres: a ingerência espiritual na vida pessoal não é possível. Uma vez uma pessoa, de modo provocatório, perguntou-me se aprovava a homossexualidade. Eu, então, respondi-lhe com outra pergunta: Diz-me: Deus, quando olha para uma pessoa homossexual, aprova a sua existência com afeto ou rejeita-a, condenando-a? É necessário sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem. Na vida, Deus acompanha as pessoas e nós devemos acompanhá-las a partir da sua condição. É preciso acompanhar com misericórdia”. O papa não está falando como um simpatizante da causa gay, não é seu objetivo se tornar benquisto pela militância gay ou ser citado em passeatas. O que ele faz é uma constatação: existem pessoas homossexuais que são cristãs católicas e a Igreja precisa acolhê-las. Acolher não é tolerar ou suportar, mas acolher mesmo. Entender que a fraternidade é da essência do cristianismo.

Indo adiante, chegamos à questão do aborto. É preciso deixar claro que a Igreja, por ser fiel ao seu fundador, jamais será favorável ao aborto ou a sua descriminalização. Nós somos a favor da vida e pronto. Mas o caso que o papa coloca é de uma mulher concreta que praticou o aborto, mas que se arrependeu e precisa ter uma nova chance. “O confessionário não é uma sala de tortura, mas lugar de misericórdia, no qual o Senhor nos estimula a fazer o melhor que pudermos. Penso também na situação de uma mulher que carregou consigo um matrimónio fracassado, no qual chegou a abortar. Depois esta mulher voltou a casar e agora está serena, com cinco filhos. O aborto pesa-lhe muito e está sinceramente arrependida. Gostaria de avançar na vida cristã. O que faz o confessor?”

É nesse contexto que o papa fala que não podemos ficar insistindo em pontos que só trazem mais sofrimento para as pessoas. “Não podemos insistir somente sobre questões ligadas ao aborto, ao casamento homossexual e uso dos métodos contraceptivos. Isto não é possível. Eu não falei muito destas coisas e censuraram-me por isso. Mas quando se fala disto, é necessário falar num contexto. De resto, o parecer da Igreja é conhecido e eu sou filho da Igreja, mas não é necessário falar disso continuamente”. O papa deixa claro que a concepção da Igreja continua a mesma, só que adverte para o cuidado pastoral que se deve ter com a pessoa concreta.