Nem sempre é o que parece

Texto de P. Alcides Marques, CP

Os nossos pensamentos nem sempre traduzem a realidade “real”. Muitas vezes, nós os tomamos como certos, sendo que são apenas aparentes; o que nos leva a vários erros de avaliação. Quase sempre acabamos nos iludindo com os mesmos, achando que estão certos e, com isso, prejudicando as nossas vidas e as vidas de outras pessoas. Os evangelhos estão cheios de exemplos de pensamentos errados, tidos como absolutamente certos. Não só dos escribas e fariseus, mas também dos próprios discípulos.

Tomemos o exemplo da cura do paralítico em Cafarnaum (Mc 2, 1-12). Na cena, Jesus ao ver o paralítico disse: “filho, teus pecados estão perdoados”. Mas, outras pessoas deixaram-se levar por pensamentos errados: “Ora, alguns dos escribas que lá estavam sentados refletiam em seu coração: Por que está falando assim? Ele blasfema! Quem pode perdoar pecados a não ser Deus?”. Os escribas estavam pensando em função de ideias distorcidas. Jesus, ao contrário, olhava o ser humano em função de suas necessidades. E o que mais aquele paralítico necessitava era o perdão de Deus. Jesus declara que os pecados estão perdoados, não só porque era (Ele Jesus) Deus, mas porque pretendia expressar em palavras que Deus (Pai) é perdão. Os escribas eram escravos de seus próprios preconceitos, por isso viam a vida e as pessoas em função de suas ideias, não em função das próprias pessoas. “O pior cego é aquele que não quer ver” ou “o pior cego é aquele que quer ver”.

Mas não são somente os escribas que tem pensamentos deturpados. Os discípulos também. “Houve entre eles uma discussão: qual deles seria o maior? Jesus, porém, conhecendo o pensamento de seus corações, tomou uma criança…” (Lc 9,46-47). Ser discípulo de Jesus não garante automaticamente a qualidade de nossos pensamentos. Jesus aponta um caminho, mas podemos não estar percorrendo este caminho. Por isso, os discípulos precisam aprender sempre do Mestre.

A vida está cheia de exemplos do quanto estamos mal acostumados com certas avaliações. Por mais que seja difícil digerir esta constatação, devemos aprender a lidar com ela. As coisas nem sempre são o que parecem. Na maioria das vezes, não são. Quantos problemas poderiam ser evitados se aprendêssemos isso. Existem pessoas que veem de uma forma deturpada a sua própria imagem. Olham no espelho, mas se veem mais gordas do que realmente são ou exageram pequenas imperfeições. Outras convivem com uma avaliação excessivamente negativa de si mesmas. Outras ainda supõem que não são queridas e que as pessoas próximas não as amam realmente. E assim por diante. O surpreendente é que algumas destas pessoas poderiam se desenvolver tanto se conseguissem se olhar de outra forma, desconfiar da maneira habitual com que se avalia.

Mas o desafio maior é o de aprender a olhar corretamente as pessoas de nossa convivência, sejam as pessoas próximas sejam os colegas. É comum nos deixarmos conduzir pelas aparências. Avaliamos as pessoas não por aquilo que são, mas pelo que parecem ser. O grave é que essa mentalidade tem tomado conta de nosso mundo, o que faz com que gastemos mais (tempo e dinheiro) para cuidar de nossa aparência do que cuidar do nosso ser. A roupa que estamos usando, a marca de nosso carro, a tecnologia que mostramos… Tudo isso vai condicionando a maneira como as pessoas devem nos ver. Mas a realidade não é nada disso. Muitas vezes, podemos estar mais representando do que realmente vivendo. Então, experimentemos ter uma atitude de constante vigilância a respeito da maneira como estamos avaliando os outros e a nós mesmos; busquemos olhar as pessoas pelo que elas realmente são. A fé nos ajuda nesta tarefa. Isso é viver pela fé. Olhar a vida pelos olhos de Deus.

“Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). O Evangelho exige de nós uma busca contínua da verdade das coisas – da verdade de nossos pensamentos e relacionamentos. Por isso, propomos o cultivo de uma atitude de suspeita diante de todas as avaliações que são muito claras, tanto positiva quanto negativamente. Desconfie quando você não enxerga defeito nenhum numa pessoa e desconfie também quando você só enxerga defeitos numa pessoa. Desconfie quando você não enxerga defeito nenhum em si mesmo e desconfie também quando você só enxerga defeitos em si mesmo. Este é o desafio: aprender a olhar as coisas de diferentes ângulos. É isso o que torna maravilhoso a aventura de viver.