Esponsais místicos

Texto de P. Mauro Odorissio, CP

O título pode não fazer sentido! Ou levantar interrogações pela adjetivação que acompanha o substantivo. Nada mais justo, então, do que tecermos brevíssimas considerações.

Todos têm noção de que “esponsais” envolve comunhão entre dois enamorados que, verdadeiramente se amando, procuram ser dinâmica comunhão. Ela os levaria a envolvente diminuição do “eu” em prol do “nós” sem limite. Mística, por sua vez, sugere o mergulhar no mistério de Deus em profunda comunhão amorosa com ele. Tratar-se-ia de um casamento divino-humano.

De início, Deus se “apaixonou” pelo povo judeu: arrancou-o da escravidão do Egito. Uma vez libertos, tinham condições de assumirem maiores responsabilidades. Propôs aliança aos ex-escravos, a saber, casar-se com eles (Gn 19,3-6). Aceita, ela foi selada com o sangue de vítimas (Ex 24,5-8). Assim eram sigiladas as alianças, então; o sangue sempre se fazia presente.

Essa aliança, porém, era imagem da nova e eterna que seria feita entre Deus e todos os povos e selada pelo sangue de Cristo (1Cor 11,25). Nela acontece o pacto, o envolvimento do Espírito e não mais o da pedra (2Cor 3,6). Esta última aliança (ou casamento) vivifica, transforma a partir do interior. Os muros separatórios que afastavam um povo do outro são derribados e com isso é formado um único, e os seus componentes passam a formar grande unidade ou comunhão. Mais: cada membro dessa grande união se torna um homem novo (Ef 2,14-22). A totalidade de tudo passa a esposa do divino esposo, Cristo (Ef 5,23-33).

Passam a existir, assim, a “prostituta”, os que nada querem com o Senhor (Ap 17,1-8), e a “esposa Cordeiro” (Ap 21,2-14). Tudo em vista das núpcias eternas (Ap 22,17).

Todos são chamados a esse especial casamento. O que é de acontecer com todos em comunidade deve, igualmente, se dar com cada um de seus componentes. Cada qual ao seu modo, quem mais, quem menos, caminha para tão especial comunhão com Deus, para tão especial casamento. Alguns o atingem em grau elevado. Trata-se de almas eleitas, modelo para a grandíssima maioria. É o sublime mistério que acontece, de modo diferenciado, na vida de tantas almas de escol. Entre estas, e de modo distinguido, é de se nomear S. Paulo da Cruz cuja festa celebramos no dia 19 de outubro. Esse mistério é conhecido como “esponsais ou matrimônio místico”.

A vida espiritual, a vida de oração passa por etapas. Num primeiro momento se coloca a vocal, a encontrada em livros piedosos, ou as que sabemos de cor. A seguir, vem a meditação: nela também se reflete os mistérios divinos. A reflexão, embora seja um precioso passo adiante, nem por isso leva, necessariamente, ao envolvimento, à comunhão, ao amor. Os grandes mestres de espiritualidade, como S. João da Cruz, S. Tereza d´Ávila as chamavam de oração dos imperfeitos.

A oração propriamente dita começa com a contemplação, fruto da graça e da colaboração humana. A partir daqui, sucessivamente, de degrau em degrau, almas enamoradas ascendem na caminhada espiritual atingindo os esponsais místicos. Foi o que aconteceu com S. Paulo da Cruz que, felizes, celebramos. Conquistou o alto grau de união espiritual com Deus o que não é dado a todos os santos. Ou mais precisamente, foi por Deus galgado aos píncaros da comunhão, quando e onde, os corações, divino e humano, se encontram no mais profundo enlace, dispensando os graus inferiores de oração. É o viver que tudo dispensa, a não ser o elo do amor dinâmico na maior das profundidades. Tudo em vista da comunhão eterna, definitiva, quando Deus será tudo em todos (1Cor 15,28).

Não que isso dispense o humano sofrer, muito menos o abrir-se aos irmãos. Ao contrário, inflamado pelo amor irradiante, o místico se torna missionário. Aliás, o verdadeiro missionário é o que se deixou, antes de tudo, ser místico, ser enamorado de Deus. Inflamado, sente-se enviado a incendiar, a transformar o mundo. O Santo que celebramos é exemplo de tudo isso.

Agora, as Comunidades que em São Carlos celebram S. Paulo da Cruz, a da Paróquia de São Sebastião e a do Mosteiro a ele consagrado, devem, a exemplo do Pai, se deixarem inflamar pelo fogo da oração que levou o Santo a tão alto grau de vida de oração e de serviço aos irmãos.