7 a 1. Sóóóó???!!!…

Texto de P. Mauro Odorissio, CP

Dizem que a data não é de ser recordada. Para isso existe a lei do esquecimento (lex oblivionis), tão usada no passado. Tivemos a oportunidade de ver clássicos monumentos e afrescos em Roma e no Egito, com nomes e referências canceladas. Pelo título o leitor já imagina a que fato nos referimos.

De antemão auguramos: oxalá o fatídico 7 a 1 seja o único e o maior “vilipêndio nacional”!… Mas, lamentavelmente, as goleadas continuam, e o que é pior, não em estádios de duvidoso esporte, mas nas arenas vitais da educação, da saúde e quejandos.  Aliás, nós nos recusamos a identificar a seleção com a nação com chuteiras. Ao nosso ver, trata-se de um negócio particular, lucrativo, que mereceria sérias investigações e, ao que nos parece, dependente de uma multinacional na qual não investiríamos as nossas fichas.

Para muitos, a data deveria não só ser olvidada, mas cancelada do calendário. Além da data, pessoas, também, deveriam ser submetidas ao pelourinho nacional.  Que tal submeter à “Lex oblivionis”, à lei do esquecimento, o maior debacle nacional? Afinal, a Pátria foi vilipendiada, a bandeira nacional, desonrada, as gerações aviltadas. Unimo-nos aos hebreus escravos na Babilônia que, recordando as ruínas de Jerusalém e do templo, lamentavam: “O mia Patria si bella e perduta, o membranza si cara a fatal!”. Dia, hora, local e pessoas sejam relegados ao olvido perpétuo!  Nada melhor do que revitalizar o velho Catão que, há mais de duzentos anos de Cristo, conclamava o cancelamento de Cartago (Carthago delenda est).

Como biblista, necessariamente nos vem à memória as amargas maldições de Jó que lamentava o dia de seu nascimento: “Desapareça o dia em que nasci, a noite em que anunciaram: `nasceu uma criança. Que esse dia se torne trevas e que do céu, Deus não se lembre e sobre ele jamais brilhe a luz. Que o obscureçam as trevas, assim como a sombra da morte” (Jó 3,3-5).

Negamos aceitar como esporte o espetáculo milionário do qual participam poucas dezenas de “esportistas” ante milhões de torcedores e telespectadores que abandonam milhares de horas operativas. Negamos como esporte o que exigiu fortunas na construção de estádios, sendo que alguns serão verdadeiros elefantes brancos. Negamos como esporte verdadeiro o que exigiu construções e reformas descartando as necessidades prioritárias da sociedade. Negamos como verdadeiro esporte o que, para beneficiar grupos, sacrificou a construção de um número indeterminado de estabelecimentos esportivos-recreativos populares nos quais, milhões de pessoas se beneficiariam do “mens sana in corpore sano” (mente sadia em corpo saudável), de Juvenal. Construções estas que, de modo especial acolheriam a infância e a juventude mais expostas às marginalidade; elas seriam úteis e disponíveis à enorme parcela da população que não dispõe de clubes recreativos e culturais.

Na medida em que parte da sociedade era condicionada pelo “panem et circienses” (pão e circo),  fora do campo o Brasil perdia de 7 a 1. Se é verdade que a FIFA foi desobrigada de pagar devidos impostos ou taxas, o Brasil, fora do campo mais uma vez perdia de 7 a 1.

Enquanto esforços humanos e decisões demagógicas, desviavam recursos que seriam bem usados se aplicados na formação, na saúde, na educação, na moradia, na segurança e em tantas outras necessidades mais, o gol do Brasil, do verdadeiro Brasil, continuava sendo vazado. Logicamente, mesmo fora do campo, ele continuava perdendo de 7 a 1.

Poder-se-ia perguntar: este problema é religioso? É certo que é! Tantas riquezas com as quais o Brasil foi prendado foram, em parte, desbaratadas. Tudo em dano da população mais pobre, mais carente. Tanto esforço, tantos bens, não foram canalizados para as maiores necessidades, para os mais carentes e sim, em benefícios outros.

É certo que coisas boas aconteceram, que pessoas foram beneficiadas, que benfeitorias foram realizadas. Isso tudo, porém, foi superlativamente representado pelo mísero e humilhante 1 ante o eloqüentíssimo 7. Então 7 a 1. SÓÓÓÓ???!!!… Que ele desapareça de nossa história.