Trindade e igualdade

Texto de P. Alcides Marques, CP

A doutrina trinitária afirma a realidade de um Deus em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. O Deus cristão é um Deus-Comunidade. Não a partir de um determinado tempo, mas desde sempre. Desde sempre e para sempre Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. O interessante, no entanto, é que tal revelação revela também algo de nós mesmos, seres humanos. Se Deus é comunidade, nenhum de nós vai conseguir se realizar como pessoa sem que se entenda como parte de uma comunidade. Nós precisamos dos outros e os outros precisam de nós. Afinal, somos criados à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,27), que é Trindade. 

Na doutrina trinitária devemos afirmar simultaneamente a unidade e a diversidade das pessoas divinas. No decorrer do cristianismo apareceram duas heresias (doutrinas falsas): uma que negava a diversidade para afirmar a unidade, o modalismo e outra que negava a unidade para afirmar a diversidade, o subordinacionismo. Já tratamos do modalismo (em 28/06). Só para recordar: tal heresia nega que existem três pessoas realmente distintas, pois só existe uma única pessoa que ora se apresenta como Pai, ora como Filho e ora como Espirito Santo. São três modos de se manifestar do mesmo Deus, como se Deus fosse uma espécie de ator representando três papeis.

O subordinacionismo não nega a realidade das três pessoas como o modalismo, mas nega a igualdade entre elas. O único absoluto é o Pai; o Filho feito homem é um ser divino, mas criado, ou seja, subordinado ao Pai. O representante maior desta doutrina foi Ario (daí o nome de arianismo). Ario afirma um Deus único, o Pai só, eterno, absoluto. Tudo o mais foi criado por ele do nada, inclusive o Filho. Deus quis produzir o mundo, e para fazer isso criou previamente, para ser o instrumento da toda a criação, um intermediário, aquele que chamamos o Verbo. O Verbo existe antes de todas as criaturas. Mas não é eterno, porque não existiu sempre. O Verbo é criado e não gerado da substância de Deus. Para o arianismo, o Filho é uma espécie de semi-Deus, ou seja, tem uma dignidade menor que o Pai.

O Concílio de Nicéia (325) condenou o arianismo. O Símbolo de Nicéia diz do Filho, refutando explicitamente a linguagem de Ario, que “nasceu unigênito do Pai, Deus de Deus, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai (isto é, da mesma e não de parecida substância divina)”. Embora o problema do Espírito Santo e de sua divindade não estivesse em jogo nesse momento da controvérsia, era lógico pensar que o que se dizia do Verbo fosse válido para compreender a situação do Espírito Santo. Mais tarde, os “macedonianos” levarão o desvio ariano ao tema do Espírito Santo e serão condenados igualmente.

Para a fé cristã, o Filho e o Espírito Santo possuem a mesma dignidade divina que o Pai. Em Deus-Trindade não há um maior e outros menores. O laço que une as pessoas divinas é o amor eterno e onde reina o amor, só pode haver igualdade.

O imperador Constantino reuniu o Concílio de Nicéia com a esperança de que este conseguisse uma solução, se não totalmente ariana, pelo menos de aproximação com o arianismo. O Deus do arianismo se envolvia com o mundo desde cima e não desde baixo (encarnação). Assim, se o arianismo era o verdadeiro cristianismo, o imperador representava, por sua própria função, a ordem subordinada do Pai: era o dono do mundo material como Deus Pai, do mundo espiritual. Se Atanásio e os seus tinham razão, Deus falava a partir do mundo material e o imperador não era dono, mas um elemento a mais nesse mundo, igual a todos os outros seres humanos.

O subordinacionismo entre as pessoas trinitárias legitima e sacraliza a subordinação de determinadas pessoas à outras (os poderosos deste mundo). A igualdade trinitária, ao contrário, desafia-nos a construir cada dia, numa atitude de responsabilidade ativa pelo mundo, a igualdade entre os seres humanos. Todos têm a mesma dignidade. Somos diferentes, mais ninguém é mais (ou menos) do que ninguém. Quem nos garante esta certeza: a Santíssima Trindade.