Nascer para o Alto

Texto de P. Alcides Marques, CP

A graça de Deus nos eleva, nos torna maiores (espiritualmente falando), nos diviniza. Não é que a graça de Deus vem para negar a natureza humana, mas ela vem para conduzir essa mesma natureza até as alturas de Deus. Uma coisa é viver simplesmente segundo a condição humana – instintos, impulsos etc. Outra coisa é deixar-se guiar pela energia divina que temos dentro de nós.

Vejamos o diálogo entre Jesus e Nicodemos (Jo 3,1-12) – Nicodemos era um fariseu. O que caracterizava os fariseus era a observância radical da Lei (de Moisés). Era um homem distinto, notável, famoso entre os judeus. Ele já tinha tudo o que a vida poderia oferecer. Tinha prestígio, fama, dinheiro. Mas, em seu íntimo alguma coisa lhe dizia que ele precisava de algo mais. Tinha ouvido falar de Jesus e certamente tinha ouvido falar que Jesus era diferente, diferente dos fariseus, dos saduceus, dos essênios e dos zelotas. Diferente de todos. Quem sabe este Jesus poderia lhe ensinar esse algo mais que faltava.

Nicodemos foi se encontrar com Jesus à noite.  Por que à noite?  Certamente porque tinha medo. Tinha medo do que as pessoas poderiam pensar dele. Medo de perder a distinção, medo de deixar de ser exemplo para os outros. Vivia um conflito interior: o seu “eu superficial” queria ser admirado, engrandecido, valorizado; mas no seu íntimo, no seu ser interior desejava autenticidade, caminho, luz.

Toma a iniciativa do diálogo. Reconhece que Jesus é mestre e reconhece em Jesus uma autoridade divina. “Rabi, sabemos que vens da parte de Deus como um mestre, pois ninguém pode fazer os sinais que fazes, se Deus não estiver com ele” (Jo 3,2b). Se Jesus é mestre com autoridade divina, então ele pode ensinar a Nicodemos o algo mais que ele precisava. A expectativa de Nicodemos era aprender de Jesus o necessário para viver melhor.

Mas Jesus, surpreendentemente, não lhe ensina esse algo mais que ele procurava. Para o mestre de Nazaré a questão não é melhorar nesse ou naquele ponto, mas mudar completamente o rumo da vida, nascer para o Alto. Nicodemos queria caminhar melhor nesta vida, Jesus lhe oferece um horizonte. De que adianta caminhar melhor se não se tem um horizonte? O problema não é como caminhar, mas para onde caminhar.

Jesus convoca Nicodemos para uma nova experiência, uma revolução de vida, um nascer. Não nascer de novo ou renascer, mas simplesmente nascer. Nascer para o Alto. “Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus” (Jo 3,5). Nascer para o Alto é deixar-se guiar pela força divina, o Espírito Santo. Reino de Deus é ação de Deus. Como é que Deus pode agir na vida de uma pessoa, se ela não se deixa conduzir pela força divina que está em seu interior? Nicodemos pensava, sentia, agia. Mas, até então, ele assim procedia guiado pelas suas próprias forças humanas. “O que nasceu da carne é carne” (Jo 3,6a). Era isso que o tornava notável, importante, famoso… O que Nicodemos precisava era deixar Deus agir em sua vida. Nascer para o Alto. “O que nasceu do Espírito é espírito” (Jo 3,6b).

O sinal do compromisso com este ensinamento de Jesus é dado pelo batismo (nascer da água). Só somos verdadeiramente discípulos (as) de Jesus Cristo quando deixamos que Deus (Pai maternal) possa agir através de nós; e isso só será possível na força do Espírito Santo.

Pensemos o seguinte: qual é horizonte de nossa vida? Será que deixamos Deus agir em e através de nós? O que prevalece no mais íntimo do nosso ser: os desejos da carne, que nos engradecem diante dos outros? Ou os desejos do Espírito, que nos elevam até Deus?