Precisamos de Deus

Texto de P. Alcides Marques, CP

Por ocasião da proximidade da semana santa, particularmente da celebração da páscoa do Senhor, nós cristãos, recorremos ao sacramento da Penitência (confissão ou reconciliação). Alguns, por mero costume; outros, talvez a maioria, com o sincero desejo de se libertar dos pecados pessoais. Exatamente por isso é que pode ficar certa inquietação interior a respeito da impossibilidade de se libertar de uma vez por todas dos pecados pessoais. Por que será que mesmo fazendo todo esforço possível, não conseguimos nos livrar dos pecados? Seríamos, espiritualmente falando, fracassados?

Vamos refrescar a nossa memória, trazendo à tona uma palavra bíblica bastante elucidativa. É a palavra concupiscência. Esta palavra significa uma forte atração para fazer coisas que desagradam a Deus, uma forte atração ao mal. E a concupiscência atinge todos nós. Indistintamente.

O Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 978, diz: “No momento em que fazemos nossa primeira profissão de fé, recebendo o santo Batismo que nos purifica, o perdão que recebemos é tão pleno e tão completo que não nos resta absolutamente nada a apagar, seja do pecado original, seja dos pecados cometidos por nossa própria vontade, nem nenhuma pena a sofrer para expiá-los. (…) Contudo, a graça do Batismo não livra ninguém de todas as fraquezas da natureza. Pelo contrário, ainda temos de combater os movimentos da concupiscência, que não cessam de arrastar-nos para o mal”. Nós nos livramos da escravidão do pecado – o pecado original -, sobretudo pela obra redentora de Cristo. “Vitória, tu reinarás. Ó cruz, tu nos salvarás”. Mas, não nos livramos da presença do mal.

Já na primeira carta de São João, lemos o seguinte: “Porque tudo o que há no mundo – a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e o orgulho da riqueza – não vem do Pai, mas do mundo” (1 Jo 2,16). O “mundo”, neste caso, é utilizado em sentido negativo. Não é o mundo como sinônimo da humanidade ou da criação, mas o mundo enquanto uma estrutura que nos envolve e que nos impulsiona ao egoísmo. E não tem como se livrar desta estrutura. Estaremos sempre sob a influência de impulsos negativos carnais (instintivos). Estaremos sempre sob a influência de impulsos visuais. Estaremos sempre sob a influência de impulsos do ter. É esta a condição humana!

No entanto, estar sob a influência destes impulsos, a concupiscência, não significa que devamos estar submetidos a eles. Para o mesmo São João, nós não devemos amar o mundo (enquanto estrutura egoísta). Isso quer dizer que devemos controlar sempre estes impulsos negativos que estão em nós. E é aqui que entra o significado do sacramento da Penitência. Mais do que confessar o pecado “x” ou “y” o que importa mesmo é o reconhecimento de nossa condição pecadora. Em resumo: nós precisamos de Deus, precisamos da graça, precisamos do perdão de Deus.

Que ninguém se iluda nesta vida, achando que se decidir por fazer o bem, vai automaticamente fazer o bem. Infelizmente, não é assim. Ao decidir pelo bem, sem dúvida, damos um passo extraordinário em sua direção, mas só efetivamente o faremos no acolhimento da graça de Deus que age em nós e na luta contínua contra os nossos impulsos negativos. Humilde e perseverança são essenciais na vida cristã.