A conversão é contínua

Texto de P. Mauro Odorissio, CP

Não sei quando, mas cedo, “Meditação de Thais” entrou na galeria de minhas músicas prediletas. Ela sempre me levou à introspecção, ao transcendental, à oração. E, depois de fruí-la, me sentia robustecido e retemperado para reassumir os compromissos do dia a dia.

Mas há dias me foi dado vivenciar a eficácia do célebre interlúdio que medeia duas cenas do segundo ato da ópera de Massenet. No aprazado momento, o silêncio era absoluto no teatro e marcante a elevação; terminada a execução, o aplauso eclodiu exuberante. Ao final da ópera, na apresentação dos personagens, lamentei a ausência da harpista ao lado do spalla com o qual formou dueto à altura da peça.

Solicito espaço para prévias e úteis considerações. No teatro éramos parte de antigo grupo engajado na pastoral familiar, mas que ainda se encontra, conforme as oportunidades. Nessas ocasiões matamos as saudades, trocamos experiências e debatemos um pouco de tudo. Neste ano, os que pudemos, mais uma vez deixamos nossas cidades para cinco dias de férias. Quando nos encontramos em S. Paulo, a programação estava feita e os necessários ingressos para a ópera Thais, no Municipal, para a peça Galileu Galilei no Teatro da Pontifícia Universidade Católica, bem como outras providências estavam tomados. Só restava não perder tempo e torcer para que tudo corresse bem.

A meu ver, diferentemente das demais óperas, Thais não leva tanto a ambientes épicos, a dramas externos com heróis e vilões, a atos de bravura ou de vilania, a dramas que suscitam lágrimas e sentimentos. Eu a vejo como igreja gótica em confronto com as barrocas, românicas, renascentistas; estas me levam à admiração e aquela, à contemplação, à reflexão, à interiorização.

A atraente e sedutora Thais, em Alexandria, era sacerdotisa de Vênus, a deusa do Amor. Jovem, à porta da casa da cobiçada cortesã, Athanael venceu ardente tentação. Mais tarde, monge no deserto, partiu com o propósito de convertê-la; trocaria o amor fugaz e enganador pelo que transforma a partir do coração. O diálogo foi árduo entre ambos e a jovem dissoluta trocou os amores efêmeros pelo o eterno.

Depois de longa, difícil e dolorosa caminhada pelo deserto, Athanael deixou a então dissoluta Thais ao cuidado de austeras monjas que lá viviam e regressou ao convívio de sua comunidade de anacoretas.

A partir de então, a vida de ambos toma rumo invertido. Na vida de oração e penitência, a jovem crescentemente vai se enamorando pelo sublime amor manifestado pelo Crucificado. Não sem razão, ao se abrirem as cortinas, havia no centro do palco uma cruz, assim como corpos iluminados por luz difusa, crescente e decrescentemente. Eles se movimentavam lenta e solenemente, nas mais variadas posições. Também Cristo desceu da cruz ao som da “overture”. Tudo prenunciava aos espectadores o que aconteceria com Thais. Realmente, a jovem dinâmica e decididamente, vai trocando o amor efêmero e fugaz da divindade pagã, pelo eterno e infinito revelado pelo Crucificado. Por isso, de tanto em tanto, em doce, mas breve ritornelo voltava a marcante melodia da “meditação de Thais”.  Ao morrer ela foi glorificada.

Concomitantemente, Athanael faz caminho inverso: deixou-se vencer pelos sentidos materiais e nada mais queria a não ser o que a antes dissoluta Thais lhe poderia proporcionar. É vibrante o diálogo entre ela, na glória, exaltando o amor cristão e ele, suspirando apenas o terreno.

No final, rende-se clamando dolorosamente “piété”: piedade.

Sim! Imagino eu, agora: a conversão não é ato fechado e definitivo, mas processo constante, árduo e crescente. Não é fácil substituir o amor fugaz e fruitivo pelo eterno e oblativo que Jesus revelou na cruz. Conversão é mais do que abraçar abstratamente a fé, acatar normas morais, vivenciar práticas litúrgicas. É assumir Cristo diuturnamente a ponto de poder clamar, como o Apóstolo: “não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). É ir deixando sempre e cada vez mais a vida de menor para a de maior perfeição. É ainda buscar no Crucificado a fonte do verdadeiro amor (Jo 15,12-13).

Em Thais, Athanael nos revela que a conversão é contínua e não de uma vez para sempre.

É esta a interpretação que apresento aos bondosos leitores.