Harvey Cox, Igreja e cidade

Texto de P. Alcides Marques, CP

No distante ano de 1965, o teólogo norte-americano Harvey Cox escreveu um livro chamado “A cidade secular”. Cox tinha uma visão extremamente positiva da cidade. É que no contexto social do autor, a urbanização se impôs como algo relativamente saudável e fruto de um processo gradual de desenvolvimento econômico. No entanto, havia (ou ainda há?) um problema: os líderes religiosos cristãos não perceberam que a urbanização veio para ficar e teimavam em viver demonizando a cidade e os seus valores em nome de uma leitura fundamentalista (literal) da Bíblia. O mérito de Cox foi o de mostrar que a Bíblia, longe de ser contra, é sim a favor da cidade.

Um dos exemplos apresentados por Cox é o da “libertação da lei”. Quando lemos o Novo Testamento, percebemos que um dos motivos mais fortes alegados por Jesus ao denunciar os fariseus e o farisaísmo, é o apego estrito à Lei. Também São Paulo Apóstolo, sobretudo na carta aos romanos e gálatas. Podemos sintetizar dizendo que o cristianismo liberta do peso da Lei. “A liberdade é a nossa vocação”, dizia um cântico antigo. O que a cidade tem a ver com isso? É o que veremos.

A cidade é o mundo das opções. Acontece que escolher é um ato de liberdade que implica renúncias.  Entre 10 filmes em exibição nos cinemas de uma cidade, escolher um deles significa renunciar a todos os outros. Uma pessoa que tivesse dificuldade de renunciar não assistiria filme algum.

No campo das relações humanas, é que o problema se amplia. Cada pessoa urbana necessita de uma série de serviços e produtos. E para tal vai precisar estabelecer muitos relacionamentos humanos. Só que ninguém vai ter condições de estabelecer relacionamentos profundos com todas as outras pessoas. Na maioria das vezes vai estabelecer relacionamentos tipicamente funcionais, ou seja, fundamentados na função que as pessoas exercem no momento, como vendedor e comprador, passageiro e motorista etc. Você não precisa saber o nome do motorista do ônibus para que ele te leve ao ponto que desejar, desde que você esteja na linha certa. Isso vale para a maioria dos relacionamentos urbanos.

Os relacionamentos anônimos (ou quase anônimos) – em que as pessoas não precisam se conhecer profundamente – com a maioria das pessoas, não devem ser entendidos como um mal, mas como uma condição essencial para que cada qual reserve suas energias para relacionamentos profundos com as pessoas que ela escolher. E assim voltamos às opções.

O anonimato urbano, em si mesmo, não é um mal, não é pecado. É sim uma exigência para se viver no mundo urbano. Anonimato não é sinônimo de solidão. Você pode fazer questão de sua privacidade (anonimato) e se relacionar profundamente com muitas pessoas; exatamente as que você escolheu. E, como já vimos, escolher algumas significa renunciar a todas as outras. No mundo tipicamente rural você não tinha escolha, mas no mundo urbano tem.

Os relacionamentos realmente pessoais, com um forte vínculo afetivo, são frutos de uma opção, e a pessoa urbana vê um grande problema em transformar os seus vizinhos geográficos em seus amigos. Na maioria das vezes, vai se sentir invadida em sua privacidade. Nesse sentido, Cox alerta para a ineficácia pastoral de se tentar estabelecer comunidades cristãs entre moradores de apartamentos, entendendo nesta postura uma tentativa de ruralizar o mundo urbano.

Na visão de Cox, o anonimato urbano vai ao encontro do ideal bíblico de libertação da Lei. A urbanização é a oportunidade de ser livre. A libertação de toda e qualquer convenção social imposta vai oferecer à pessoa urbana a oportunidade de escolher por si mesma com quem ela quer estabelecer relacionamentos profundos. A Igreja deve ajudar a pessoa urbana a ser cada vez mais urbana; não fazer com que a mesma fique prisioneira de uma mentalidade rural. Precisamos acolher todas as pessoas do jeito que elas são e com a mentalidade e valores que elas possuem. Aí sim dialogar com elas. “Eu vim para que todos tenham vida” (Jo 10,10).