Ainda a Exaltação

Texto de P. Mauro Odorissio, CP

Já me foi dado escrever sobre a Exaltação da Santa Cruz, nesta página. Voltar ao assunto não é redundância ou truísmo; o tema é inesgotável e vital para todos, mas sobremaneira para a Família Passionista.  O mistério, celebrado em 14 de setembro, a caracteriza e sempre pede aprofundamentos.

Na Epístola aos gálatas, Paulo diz que morreu para a Lei a fim de viver para Deus. Então, se vê pregado na cruz. A afirmação é prenhe e exige considerações.

Inicialmente chama os gálatas de insensatos: abandonaram a salvação oriunda do Crucificado que ele anunciara, e voltaram às práticas da Leis do Primeiro Testamento. Acolher a salvação da circuncisão seria o como julgarmo-nos salvos pelo fato de fazermos boas ações, sermos batizados, participarmos das missas dominicais, trazermos esta ou aquela fita ou medalha, observarmos os Mandamentos, etc. etc. Na verdade, nada e ninguém nos salva a não ser o Senhor (Gl 2,19-3,5). A salvação vem do alto. Buscar recursos fora de Cristo é anular ou negar a redenção que ele nos legou.

Fomos resgatados da maldição por ele que se imolou na cruz por nós. Por isso o Santo diz só se gloriar na cruz de Jesus por quem ele e o mundo estão crucificados (Gl 6,14-15). Se a justificação fosse pela prática da Lei, Cristo teria morrido em vão por nós. Ou, se nos justificamos por nós mesmos, não precisamos do Senhor. Mas, a justificação vem gratuitamente dele; é de esperar de nós a prática das obras de justiça, a saber, as chamadas obras boas; mas não como moeda de compra e sim, no espírito de serviço, de diaconia, pois somos servos inúteis e fazemos o que nos cabe fazer (Lc 17,7-10).

A cruz nos é fundamental, mas não por ter sido “aquela cruz, tirada daquela árvore”. Nem pelo fato de ser dois pedaços de madeira que se cruzam. Valorizar isso é animismo religioso, é atribuir poderes mágicos ou sobrenaturais a ela. O importante é nela descobrir o Amor Crucificado, nela descobrir a cátedra do verdadeiro amor.

É lamentável que a palavra “amor” seja tomada com acepções tão diversificadas a ponto de ser necessário distinguir “verdadeiro e falso amor”, ou “amor fruitivo, o de tirar vantagem, e amor oblativo, o que leva à doação do amante ao amado”.

São Paulo da Cruz, falando em festa diz que, na ocasião sempre se faz uma refeição melhor. Recorda, então que, celebrando a Exaltação da Santa Cruz, é de se buscar o alimento da vontade divina “a exemplo do Amor Crucificado”.

De imediato ele dá profundo salto qualitativo, o do profundo orante, que “abandona-se, imediatamente, no mar imenso do amor divino, entrando pela porta do coração puríssimo de Jesus, com fé pura, sem imagens; logo a seguir, feche-se totalmente nesse grande Santo dos Santos e aí perca-se completamente no oceano sem fundo da infinita caridade de Deus, elevando-se à contemplação das infinitas grandezas, encantos e riquezas do Sumo Bem, comprazendo-se nele, deixando-se arder nesse grande fogo como uma gota de cera e cobrindo-se com esse ramalhete de aromas que são os sofrimentos de Jesus. Aí, deixe-se arder completamente, reduzida a cinzas como uma vítima de holocausto”.

Parágrafo como este, é verdadeiro tratado místico sobre a oração, a que plasma apóstolos

Não ousei alterar a pontuação usada pelo Santo. Ela evidencia o elã incontrolável do seu coração incendiado pelo amor que fruiu da cruz. Revela, de imediato, o exímio orante e mestre de oração; controla e cerceia potencialidades humanas (inteligência, vontade, memória), deixando que o seu coração apaixonado dialogue, apaixonadamente, com o coração do Crucificado apaixonado e apaixonante.

E não é de, gratuita e apressadamente, julgá-lo intimista, fruindo, egoisticamente, o “doce não fazer nada” ante o Crucificado que seria todo e só dele. Ao contrário; é a partir daí que surge o apóstolo autêntico como foi. S. Paulo da Cruz que jamais semeou vento ou palavras vazias.

Que a solenidade nos leve a ser, crescentemente, almas passiológicas que auxiliem o mundo ser incendiado pelo amor revelado na cruz, o que não tem limites.