Esmola, oração e jejum

Texto de P. Mauro Odorissio, CP

A palavra tripé tanto pode significar o aparelho com três pés, o qual dá condições para fotografar, filmar, contemplar astros e planetas com melhor precisão, como o conjunto de coisas distintas que formam um todo harmonioso.  Assim, a esmola, a oração e o jejum formam um conjunto virtuoso que deve, não só estar em comunhão entre si, como em harmonia ontológica, a saber, entre o interior, o constitutivo da pessoa e o seu exterior, a parte operativa. Estas três virtudes são basilares, quer na espiritualidade do Primeiro, quer na do Novo Testamento. Elas mereceram considerações por parte de Jesus e de todos.

Jamais repetiremos sobejamente que Quaresma é tempo de conversão. Converter-se é fazer com que a agulha imantada da bússola de nosso coração não apenas indique o polo norte de nossa existência, como nos leve firme e constantemente para Deus. Iniciando tão distinguido tempo litúrgico, na Quarta Feira de Cinzas, a Igreja nos apresenta Jesus falando sobre a esmola, a oração e o jejum (Mt 6,1-6.16-18).

Como ponto de partida, a pureza de intenção deve impregnar o coração humano que assume cada uma das três virtudes. Ela é chamada de “justiça”, a força motriz que vai especificar a qualidade da ação humana. Ela pode tanto estar direcionada para Deus como para os homens. Se ela for feita para chamar a atenção humana, o pretenso virtuoso já recebeu a sua paga: a de chamar a atenção das pessoas. Então, o que fez foi mero ato teatral. O ato aparentemente virtuoso procede de intenção desvirtuada. A ação que deveria ser teocêntrica, a saber, dirigida para Deus, se transformou em egocêntrica; não envolve minimamente o Senhor (Mt 6,1). O que deveria ser culto a ele e serviço aos irmãos se transformou em exibicionismo, em pura egolatria. O que seria ato religioso tornou-se teatro exibicionista.

A seguir, Jesus passa a falar especificamente da esmola (Mt 6,2-4). É de se ter presente, antes de tudo, que todos os bens existentes na face da terra são dons divinos para o bem de todos. Não é lícito  alguém apropriar-se deles em dano do próximo. Ao contrário, partilhando inicialmente o coração, portanto, partindo da falada “justiça”, é do discípulo saber dividir o pão com os irmãos mais necessitados. Daqui vem a palavra misericórdia, em grego “éleos”, da qual procede o termo “esmola”.

E, por falar nisto, é de recordarmos que estamos no Ano da Misericórdia.A esmola deve estar aberta ao serviço do irmão e para a glória de Deus. Sem hipocrisia.

A outra virtude recomendada é a da oração (Mt 6,5-6). Em si, ela deve ser, primordialmente, encontro com Deus que é Pai de todos, “nosso”, e não apenas de uns poucos (Mt 6,9). Nesta paternidade comum, todos devem se encontrar como irmãos. Este encontro oracional exige que seja na fraternidade. A oração, portanto, está longe de ser mera forma estereotipada, maquinal, que sabemos de cor ou que lemos pronta, em livros. Ela, encontro com o Pai, será impossível sem suscitar profundo espírito de filiação e, logicamente, de fraternidade. A expressão rezar “escondidamente no quarto” não é de ser levada ao pé da letra, mas o Evangelista insiste que ela jamais seja meio para ostentação, mas comunhão com todos os irmãos da face da terra.

O Senhor ainda fala do jejum (Mt 6,16-18), valorizado na Bíblia toda. Esta prática está intimamente vinculada com o que se considerou até agora. Inegavelmente ele é de grande valor ascético: é saber, como atleta de Cristo, controlar as paixões para ser verdadeiro lutador pela causa do bem (1Cor 9,24-29). Além disto é saber partilhar, com os irmãos necessitados, os bens de Deus que são de todos. Que o jejum, longe de ser ocasião de ostentação, seja alimento a fortalecer a partilha, o espírito de comunhão e de justiça. O lavar-se, ungir-se e perfumar-se estejam como manifestação de que o egoísmo vai cedendo lugar à fraternidade, à justiça e ao amor.

A Quaresma, então, é oportunidade única de reflexão, de esforço para que a justiça, a paz e a fraternidade reinem, cada vez mais, na face da terra.

Que este momento quaresmal de graça, fortalecido pelas luzes do Ano da Misericórdia, nos leve ao crescimento da fraternidade no mundo.