Corrigir os que erram

Texto de P. Alcides Marques, CP

Corrigir os que erram é mais uma das obras de misericórdia espiritual. Enquanto a outra obra – ensinar os ignorantes – diz respeito a algo que não sabemos, esta diz respeito a algo que sabemos, mas que não estamos conseguindo fazer da maneira que deveria ser feita. Para a maioria das pessoas não é nada fácil aceitar um erro e muito mais aceitar uma correção. Mas, a verdade da vida vai exigir tal caminho; por mais difícil que seja. Amar – como Jesus amou – não é fácil.

Esta obra de misericórdia diz respeito especialmente ao erro moral: o pecado ou uma situação próxima do pecado. Por extensão, podemos aplicá-la também a todos os outros tipos de erro. Imagine um aluno que ao escrever uma redação não obedece minimamente às regras literárias; não consegue deixar claro o começo, o meio e o fim de seu escrito. Um bom professor vai apontar as partes erradas; vai ajudá-lo a entender os seus erros. E isso com um objetivo construtivo.

Como falar em correção quando o Evangelho nos proíbe julgar? “Não julgueis para não serdes julgados” (Mt 7,1). Acontece que o que Jesus está dizendo diz respeito à pessoa, ou seja, não devemos julgar o interior das pessoas. Isso porque nós não temos condições de conhecer realmente uma pessoa em sua totalidade; conhecer suas dificuldades e limites, suas motivações e possibilidades. Não podemos julgar as pessoas, mas podemos avaliar suas atitudes. A correção não diz respeito ao íntimo da pessoa, mas a um comportamento dela; um comportamento destrutivo.

O Evangelho fala em correção fraterna. “Se teu irmão pecar, vai corrigi-lo a sós” (Mt 18,15). Se não der certo, aí sim recorre a outras pessoas ou à comunidade (Cf. Mt 18,16-17). Jesus é especialista em fraternidade e sabe da dificuldade de se preservá-la. Mas a mesma não pode se dar à custa do erro, sobretudo do pecado. O desafio que fica é o de corrigir e, ao mesmo tempo, manter a fraternidade. Correção sem fraternidade não tem sentido.

É por isso que, da parte de quem corrige, exige-se também humildade. Todos nós erramos nesta vida e precisamos da ajuda dos outros para nos manter sempre no caminho do bem. Quem corrige não é dono da verdade, mas alguém comprometido com o bem da outra pessoa. Corrigir não é humilhar. Não é uma forma de exibir superioridade, mas de ajudar realmente a outra pessoa. Em última análise, o compromisso maior é com a fraternidade possível.

Da parte de quem é corrigido exige-se mais humildade ainda. Não é fácil aceitar um erro. E ainda mais quando o erro é apontado por outra pessoa, inclusive por uma pessoa bastante próxima de nós. Tal situação gera inicialmente um senso de fragilidade. Mas depois, quando as coisas se ajeitam, o nosso amor pela outra pessoa se torna mais forte ainda.

O amor sincero pede este enfrentamento dos erros. Pensemos em nossas comunidades e famílias. A mediocridade vai tomando conta da vida de todo mundo, quando a postura for de “convivência pacífica”; uma convivência superficial, em que as pessoas aceitam os erros umas das outras e assim vão se constituindo numa espécie de ajuntamento de pessoas. Comunidade, família não é ajuntamento de pessoas.

A correção fraterna supõe o cultivo da paciência. É preciso pedir a Deus sabedoria para corrigir o outro da melhor maneira possível. Corrigir no momento certo e com as palavras certas; demonstrando, não uma tentativa de julgamento do outro, mas um compromisso com o amor e a verdade. Para o bem de todos.