A construção da vida

Texto de P. Alcides Marques, CP

Um filme alemão (1998), chamado no Brasil de “Corra, Lola, Corra”, pode ser utilizado para uma reflexão sobre a vida humana e maneira como nós a construímos. Mesmo que você não tenha assistido ao filme, vai a entender a nossa linha de argumentação. Um breve resumo: Lola tem 20 minutos para conseguir uma alta quantia em dinheiro para salvar a vida de seu namorado das mãos do chefe de uma quadrilha. O namorado de Lola foi encarregado pela quadrilha de transportar o dinheiro numa sacola. Acontece que, por uma distração sua, esquece no metrô e a sacola fica em poder de um mendigo. Ele então fica diante do seguinte desafio: ou arruma o dinheiro em 20 minutos ou morre.

O filme vai contar em três histórias as possíveis alternativas de Lola, que passa correndo o filme inteiro. As três histórias trabalham com as mesmas cenas, só que alteradas em seu encadeamento. Por exemplo: numa história o cachorro atrapalha a corrida de Lola; noutra história, ele ataca Lola e na terceira, Lola pula e não nem é atrapalhada nem atacada. Por este e por outros tantos motivos, o final da história vai ser alterado. Na primeira, Lola não consegue o dinheiro de seu pai banqueiro e eles assaltam uma lanchonete, mas Lola acaba morrendo por um tiro de um policial. Na segunda, Lola não consegue o dinheiro do pai, mas consegue roubar a arma de um segurança e obriga seu pai e lhe dar o dinheiro; o problema é que quando o namorado vem ao seu encontro, acaba morrendo atropelado por uma ambulância. Na terceira, o namorado acaba trombando com o mendigo e recuperando o dinheiro; já Lola, por não encontrar o pai, decide jogar num cassino e ganha o dinheiro necessário. Assim sendo, eles recuperam o dinheiro e ficam com a mesma quantia ganha por Lola, além de não morrerem. Dois finais tristes e um feliz.

Tempo e decisão. Lola tem um tempo para resolver um problema (conseguir dinheiro). A vida humana se constrói no tempo, é temporal. Existe um tempo limitado que está ao nosso alcance. Assim como Lola, as nossas decisões devem ser tomadas num espaço limitado de tempo. Ninguém tem todo o tempo do mundo. A vida não nos dá alternativa. E isso está acontecendo sempre. Todos têm que se movimentar em direção a algo. Ninguém pode ficar parado.

Decisões e limitações. A questão não se resolve somente com uma decisão, é preciso também que haja a possibilidade de executar a decisão. Uma queda de Lola provocou uma limitação física que dificultou a execução de seu objetivo. Em nossas decisões, temos que levar em conta as nossas limitações. Quantos projetos não foram realizados por problemas de limitação. Não por uma questão de vontade. É sinal de sabedoria contar com as limitações e saber contorná-las.

Nossas decisões e as decisões dos outros. No jogo da vida, não bastam as nossas decisões, pois elas estão interligadas com as decisões de outras pessoas. O pai de Lola poderia ter ajudado, mas não ajudou. Ninguém pode achar que suas decisões são suficientes. São importantes, mas não suficientes. A nossa vida vai se construindo pela maneira como as decisões dos outros atingem a nós e as nossas decisões. Quem opta pelo casamento, vai ter que se envolver com as decisões da outra pessoa também. O mesmo vale para a Vida Religiosa e o trabalho pastoral na Igreja.

Minha decisão e o acaso. Isso mesmo: nós temos que contar com a sorte ou azar a todo o momento. Precisamos vencer a ilusão do controle da vida. O fator sorte também é parte da vida. A nossa alternativa é de saber aproveitar do fator sorte e saber minimizar os momentos de azar.

O que tudo isso tem a ver com a nossa fé cristã? É que Deus nos criou assim. Nós não somos marionetes em suas mãos, mas parceiros na construção da vida. Jesus convida: “vem e segue-me” (Mt 19, 21). A decisão (as decisões) é nossa.