Palavra de Deus e Lei de Deus

Tabua da Lei

Texto de P. Mauro Odorissio, CP

No início da história dos judeus é dito que Deus primeiro libertou o povo e só então lhe propôs especial aliança. Jamais se afirmará sobejamente que aliança, testamento, casamento, são sinônimos. Com esta afirmação fica claro que o Primeiro Testamento relata a caminhada do povo judeu como tal, mas aberta ao Novo Testamento que é a complementação e o ápice daquele. O objetivo final de Deus é o bem de toda a humanidade.  Com a Nova Aliança, por sinal, a definitiva, cessa a que fora transitória, sinal.

Quem a abraça um pacto, um testamento, uma aliança, numa palavra, deve estar em condições de acatá-la. Isto significa que os envolvidos sejam plenamente livres e estejam plenamente cônscios do que acontece. Por isso, Javé libertou os então escravos judeus e só então lhes propôs especial aliança, especial casamento. Em vista de todos os povos, os ex-escravos do Egito, foram eleitos como povo sinal. Ante a concretização amorosa na libertação, foi proposta aos judeus especial aliança que de pronto foi acatada (Ex 19,4-8). O documento da aliança foi exarado na Pedra da Lei e selada com sangue de vítimas, autenticando, assim, o documento sagrado (Ex 24,4-8).

A Lei de Deus, então, passou a ser cada vez mais cultuada, estudada e interpretada, sobremaneira pelos fariseus, dos quais, muitos descambaram em comprometedor e até ridículo ritualismo. Tanto que chegavam a considerar trabalho no sábado, quando alguém colhesse uma espiga de trigo, friccionasse-a nas mãos para comer os grãos (Lc 6,1-5). Chegaram, ainda, ao exagero de controlar os passos que poderiam ser dados fora de casa, no sábado: cerca de um quilômetro (At 1,12). O que no início foi zelo, com o tempo descambou no legalismo. Então, eram capazes de se preocupar escrupulosamente em guardar o exterior da lei do sábado, sem abraçar o seu espírito (Mt 12,9-14). Ante tanta descaraterização da vida religiosa, Jesus afirmou que o sábado foi feito para a pessoa e não o contrário (Mc 2,23-28).

Sendo fiel ao espírito e não à letra da Lei, Jesus não violava o sábado que foi instituído em benefício do ser humano para que ninguém fosse escravo (Dt 5,12-15). É importante  confrontar esta passagem com a de Ex 20,8-11, marcada por visão mais cultual. Ambas não se excluem e sim se enriquecem. O texto de Dt 5,12-15 é fonte iluminadora na compreensão e valorização do ser humano e que leva à melhor compreensão do que se exige no Ano Sabático (Lv 25,1-7) e no Jubilar (Lv 25,8-17).

No primeiro se nota sociedade organizada a dar condições ao trabalhador de ganhar, em seis anos, o suficiente para depois usufruir um de repouso no convívio familiar e nos cuidados com as coisas do alto. Além disto, excluir a ambição de amealhar os bens do mundo em dano da sociedade.

No segundo, isto é, no Ano Sabático, que acontecia de quarenta e nove em quarenta e nove anos,  ano jubilar, o esforço, o objetivo era para que a sociedade fosse mais fraterna e igualitária, sem credores e devedores era mais evidente. O objetivo era fazer com que ninguém ficasse desamparado, desassistido na justiça política, social, econômica. Assim, era dado ao despossuído por causas diversas, voltar a ter seu quinhão.

Estes e outros objetivos e ensinamentos visando o bem das pessoas e do mundo foram descambando no chamado legalismo, no ritualismo já acenados. Tratava-se de exterioridade não condizente com a interioridade da lei, exterioridade sempre condenada por Jesus (Mt 23,23-36).

É neste contexto a ser sempre combatido que chegou quem é a Palavra feita carne (Jo 1,1-4.14), que se revelou Vida vivificante: Jesus  (Jo 14,6). Declarou solenemente que não veio para abolir a Lei, ou mais precisamente as obras da Lei, e sim para leva-la à perfeição, à plenitude (Mt 15,17-20). Não desmereceu as obras da lei; mas declarou solenemente que elas deviam proceder de coração santo, correto. Então, para complementar a Lei e levá-la à perfeição, ele se fez a Palavra de Deus que assumiu carne. Mais do que ensinar ele deu a vida para que todos a tivessem em plenitude (Jo 10,10). Isto não implica abandonara as obras da Lei; mas mostra que elas não procedendo de coração convertido, levam ao farisaísmo, à pura exterioridade.

Para que tudo ficasse bem claro, Jesus disse claramente que não veio para ab-rogar a Lei, mas para mostrar que ela se resumia no amor a Deus e ao próximo (Mt 22,37-40). Para deixar tudo bem explícito concretizou seu ensinamento dando a vida pelos humanos. E é desta maneira que os discípulos devem amar: como ele amou (Jo 15-12-13).

É a esta a Palavra de Deus que os corações devem estar abertos, é esta a que deve ser procurada, vivida, anunciada. Tanto que, se um anjo revelasse algo diferente do ensinamento do Evangelho seria anátema (Gl 1,8).

É de os cristãos de boa vontade, acima de tudo, estarem abertos à mensagem divinamente inspirada, às da Sagrada Escritura. E não permitir vida ou práticas religiosas chamadas farisaicas, que se contentam com a exterioridade.

Que os corações autênticos levem à autenticidade e que a lei da Lei seja a que se inspira no amor que Jesus proclamou abraçando a cruz: tudo para o bem de todos.