A quaresma é o tempo para reencontrar a rota da vida

HOMILIA DO PAPA FRANCISCO na missa de quarta-feira de cinzas, do dia 06/03/2019, na Basílica de Santa Sabina.

«Tocai a trombeta em Sião, ordenai um jejum» (Jl 2, 15): diz o profeta na primeira Leitura. A Quaresma abre-se com um som estridente: o som duma trombeta que não afaga os ouvidos, mas proclama um jejum. É um som intenso, que pretende abrandar o ritmo da nossa vida, sempre dominada pela pressa, mas muitas vezes não sabe bem para onde vai. É um apelo a deter-se – um “parar!” para ir ao essencial, a jejuar do supérfluo que distrai. É um despertador da alma.

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O seu manto está sempre aberto para nos acolher

HOMILIA DO PAPA FRANCISCO por ocasião da festa da trasladação do ícone mariano da “salus populi romani” – Basílica de Santa Maria Maior
Domingo, 28 de janeiro de 2018

Recorremos, procuramos refúgio. Os nossos pais na fé ensinaram-nos que, nos momentos turbulentos, é preciso acolhermo-nos sob o manto da Santa Mãe de Deus. Outrora os perseguidos e os necessitados procuravam refúgio junto das mulheres nobres da alta sociedade: quando o seu manto, que era considerado inviolável, se estendia em sinal de acolhimento, a proteção era concedida. O mesmo, fazemos nós em relação a Nossa Senhora, a mulher mais excelsa do género humano. O seu manto está sempre aberto para nos acolher e recolher-nos. Bem o recorda o Oriente cristão, onde muitos celebram a Proteção da Mãe de Deus, que, num lindo ícone, é representada com o seu manto abrigando os filhos e cobrindo o mundo inteiro. Os próprios monges antigos recomendavam que, nas provações, nos refugiássemos sob o manto da Santa Mãe de Deus: invocá-La – «Santa Mãe de Deus» – já era garantia de proteção e ajuda, repetindo apenas assim: «Santa Mãe de Deus», «Santa Mãe de Deus»…

Esta sabedoria, que vem de longe, ajuda-nos: a Mãe guarda a fé, protege as relações, salva nas intempéries e preserva do mal. Onde Nossa Senhora é de casa, o diabo não entra. Onde Nossa Senhora é de casa, o diabo não entra. Onde está a Mãe, a perturbação não prevalece, o medo não vence. Quem de nós não precisa disto? Quem de nós não se sente às vezes perturbado ou inquieto? Quantas vezes o coração é um mar em tempestade, onde as ondas dos problemas se amontoam e os ventos das preocupações não cessam de soprar! Maria é a arca segura no meio do dilúvio. Não serão as ideias ou a tecnologia a dar-nos conforto e esperança, mas o rosto da Mãe, as suas mãos que acariciam a vida, o seu manto que nos abriga. Aprendamos a encontrar refúgio, indo todos os dias junto da Mãe.

Não desprezeis as súplicas: continua a antífona. Quando nós A imploramos, Maria pede por nós. Há um lindo título em grego – Grigorusa – que significa «Aquela que intercede prontamente». E este termo «prontamente», usa-o Lucas no Evangelho para Maria quando foi visitar Isabel: à pressa, imediatamente! Intercede prontamente, não demora, como ouvimos no Evangelho, onde imediatamente leva a Jesus a necessidade concreta daquelas pessoas: «Não têm vinho» (Jo 2, 3), e não acrescenta mais nada! Assim faz, sempre que A invocamos: quando nos falta a esperança, quando escasseia a alegria, quando se esgotam as forças, quando se obscurece a estrela da vida, a Mãe intervém. Está atenta ao cansaço, sensível às turbulências – as turbulências da vida –, próxima do coração. E nunca, nunca despreza as nossas orações; não deixa perder-se uma sequer. É Mãe, nunca Se envergonha de nós; antes, só espera poder ajudar os seus filhos.

Extremismo da caridade

Parte da homilia feita na celebração eucarística realizada na cidade do Cairo (Egito) – 29/04/2017

O Ressuscitado desaparece da vista deles, para nos ensinar que não podemos reter Jesus na sua visibilidade histórica: «Felizes os que creem sem terem visto!» (Jo 21, 29; cf. 20, 17). A Igreja deve saber e acreditar que Ele está vivo com ela e vivifica-a na Eucaristia, na Sagrada Escritura e nos Sacramentos. Os discípulos de Emaús compreenderam isto e voltaram a Jerusalém para partilhar com os outros a sua experiência: «Vimos o Senhor… Sim, verdadeiramente ressuscitou!» (cf. Lc 24, 32).

A experiência dos discípulos de Emaús ensina-nos que não vale a pena encher os lugares de culto, se os nossos corações estiverem vazios do temor de Deus e da sua presença; não vale a pena rezar, se a nossa oração dirigida a Deus não se transformar em amor dirigido ao irmão; não vale a pena ter muita religiosidade, se não for animada por muita fé e muita caridade; não vale a pena cuidar da aparência, porque Deus vê a alma e o coração (cf. 1 Sam 16, 7) e detesta a hipocrisia (cf. Lc 11, 37-54; At 5, 3.4). Para Deus, é melhor não acreditar do que ser um falso crente, um hipócrita!

A fé verdadeira é a que nos torna mais caridosos, mais misericordiosos, mais honestos e mais humanos; é a que anima os corações levando-os a amar a todos gratuitamente, sem distinção nem preferências; é a que nos leva a ver no outro, não um inimigo a vencer, mas um irmão a amar, servir e ajudar; é a que nos leva a espalhar, defender e viver a cultura do encontro, do diálogo, do respeito e da fraternidade; é a que nos leva a ter a coragem de perdoar a quem nos ofende, a dar uma mão a quem caiu, a vestir o nu, a alimentar o faminto, a visitar o preso, a ajudar o órfão, a dar de beber ao sedento, a socorrer o idoso e o necessitado (cf. Mt 25, 31-45). A verdadeira fé é a que nos leva a proteger os direitos dos outros, com a mesma força e o mesmo entusiasmo com que defendemos os nossos. Na realidade, quanto mais se cresce na fé e no seu conhecimento, tanto mais se cresce na humildade e na consciência de ser pequeno.

Queridos irmãos e irmãs, Deus só aprecia a fé professada com a vida, porque o único extremismo permitido aos crentes é o da caridade. Qualquer outro extremismo não provém de Deus nem Lhe agrada.

Deixar-se misericordiar

Meditação do papa Francisco por ocasião do retiro espiritual do jubileu dos sacerdotes. Ano Santo da Misericórdia 02/06/2016

Na Igreja tivemos, e temos, tantas coisas não muito boas, e muitos pecados, mas nisto de servir os pobres com obras de misericórdia, como Igreja sempre seguimos o Espírito, tendo-o feito os nossos Santos de maneira muito criativa e eficaz. O amor pelos pobres é o sinal, a luz que faz com que as pessoas glorifiquem o Pai. É isto que o nosso povo aprecia no padre: se cuida dos pobres, dos doentes, se perdoa os pecadores, ensina e corrige com paciência… O nosso povo perdoa muitos defeitos nos padres, exceto o de serem agarrados ao dinheiro. O povo não o perdoa. E não é tanto pela riqueza em si, mas porque o dinheiro nos faz perder a riqueza da misericórdia. O nosso povo pressente os pecados que são graves para o pastor, que matam o seu ministério porque o transformam num funcionário ou, pior, num mercenário, e, diversamente, os pecados que são, não diria secundários – porque não sei se teologicamente se pode dizer isso –, mas possíveis de suportar, carregar como uma cruz, até que o Senhor finalmente os purifique, como fará com a cizânia. Ao contrário, o que atenta contra a misericórdia é uma contradição principal: atenta contra o dinamismo da salvação, contra Cristo que «Se fez pobre para nos enriquecer com a sua pobreza» (cf. 2 Cor 8, 9). Sucede isto, porque a misericórdia cura à custa de «perder algo de si mesma»: um retalho do coração fica com o ferido, perdemos um momento da nossa vida quando o damos a outrem numa obra de misericórdia, em vez de o ocuparmos naquilo que nos apetecia fazer.

Por isso, não se trata de Deus ter misericórdia de mim numa falta ou noutra como se, no resto, eu fosse autossuficiente, nem se trata de realizar, de vez em quando, algum ato especial de misericórdia com uma pessoa necessitada. A graça que pedimos, nesta oração, é a de nos deixarmos «misericordiar» por Deus em todos os aspectos da nossa vida e sermos misericordiosos com os outros em toda a nossa atividade. Para nós, padres e bispos, que trabalhamos com os Sacramentos batizando, confessando, celebrando a Eucaristia… a misericórdia é o modo de transformar toda a vida do povo de Deus em sacramento. Ser misericordioso não é apenas um «modo de ser», mas «o modo de ser». Não há outra possibilidade de ser sacerdote. O Cura Brochero dizia: «O sacerdote que não sente muita compaixão pelos pecadores, é um meio-sacerdote. O que me faz sacerdote não são estes trapos abençoados de que estou revestido; se não levo no meu peito a caridade, nem a cristão chego».

Que eu veja de novo

Homilia do papa Francisco, na Basílica Vaticana, dia 04 de março de 2016, numa Celebração Penitencial.

«Que eu veja de novo» (Mc 10, 51): este é o pedido que queremos fazer hoje ao Senhor. Ver de novo, depois de os nossos pecados nos terem feito perder de vista o bem e desviar da beleza da nossa vocação, levando-nos a vagar longe da meta.

Este trecho do Evangelho possui um grande valor simbólico, porque cada um de nós se encontra na situação de Bartimeu. A sua cegueira levara-o à pobreza e a viver na periferia da cidade, dependendo em tudo dos outros. Também o pecado tem este efeito: empobrece-nos e isola-nos. É uma cegueira do espírito que impede de ver o essencial, fixar o olhar no amor que dá a vida; e, aos poucos, leva a deter-se no que é superficial até deixar insensíveis aos outros e ao bem. Quantas tentações têm a força de anuviar a vista do coração e torná-lo míope! Como é fácil e errado crer que a vida dependa do que se possui, do sucesso ou do aplauso que se recebe; que a economia seja feita apenas de lucro e consumo; que as pretensões próprias devam prevalecer sobre a responsabilidade social! Olhando apenas para o nosso eu, tornamo-nos cegos, amortecidos e fechados em nós mesmos, sem alegria e sem liberdade. É horrível!

Mas Jesus passa; passa, mas detém o passo: «parou», diz o Evangelho (v. 49). Então um frémito atravessa o coração, porque nos damos conta de ser contemplados pela Luz, por aquela Luz gentil que nos convida a não ficar fechados nas nossas cegueiras tenebrosas. A presença de Jesus perto de nós faz sentir que, longe d’Ele, falta-nos qualquer coisa importante: faz-nos sentir necessitados de salvação; e isto é o princípio da cura do coração. Depois, quando o desejo de ser curado ganha audácia, leva a rezar, a gritar, com força e insistência, por ajuda, como fez Bartimeu: «Jesus, Filho de David, tem misericórdia de mim!» (v. 47).

Cuidar da terra, cuidar do irmão

Parte do discurso do Papa Francisco na Universidade Católica do Equador, no dia 07/07/2015

As comunidades educativas têm um papel fundamental, um papel essencial na construção da cidadania e da cultura. Cuidado, não basta realizar análises, descrições da realidade; é necessário gerar as áreas, espaços de verdadeira pesquisa, debates que gerem alternativas para as problemáticas especialmente de hoje. Como é necessário ir ao concreto!

Perante a globalização do paradigma tecnocrático que tende a «crer que toda a aquisição de poder seja simplesmente progresso, aumento de segurança, de utilidade, de bem-estar, de força vital, de plenitude de valores, como se a realidade, o bem e a verdade desabrochassem espontaneamente do próprio poder da tecnologia e da economia» (LS 105), hoje a vós, a mim, a todos, é-nos pedido, com urgência, que nos animemos a pensar, a debater sobre a nossa situação atual. Digo urgência de que nos animemos a pensar sobre qual cultura, sobre o tipo de cultura que queremos ou pretendemos não só para nós, mas também para os nossos filhos e nossos netos. Esta terra, recebemo-la como herança, como um dom, como um presente. Far-nos-á bem interrogarmo-nos: Como queremos deixá-la? Qual é a orientação, o sentido que queremos dar à existência? Com que finalidade passamos por este mundo? Para que lutamos e trabalhamos? (LS 160). Para que estudamos?

As iniciativas individuais são sempre boas e fundamentais, mas é-nos pedido para dar um passo mais: animar-nos a olhar a realidade organicamente e não de forma fragmentária; a fazer perguntas que nos envolvam a todos, uma vez que «tudo está interligado» (LS 138). Não existe direito à exclusão.

Como Universidade, como centros educativos, como professores e estudantes, a vida desafia-nos a responder a estas duas perguntas: Para que precisa de nós esta terra? Onde está o teu irmão?

Perdoa tudo e perdoa sempre

Homilia do Papa Francisco, na Basílica Vaticana, dia 13/03/2015, durante uma celebração da Penitência.

A chamada de Jesus leva cada um de nós a nunca se deter na superfície das coisas, sobretudo quando estamos diante de uma pessoa. Somos chamados a olhar para além, a fixar o coração para ver de quanta generosidade cada um é capaz. Ninguém pode ser excluído da misericórdia de Deus; todos conhecem o caminho para aceder a ela e a Igreja é a casa que acolhe todos e não rejeita ninguém. As suas portas permanecem abertas, para que quantos são tocados pela graça possam encontrar a certeza do perdão. Quanto maior for o pecado maior deve ser o amor que a Igreja manifesta em relação àqueles que se convertem. Com quanto amor Jesus olha para nós! Com quanto amor cura o nosso coração pecador! Nunca se assusta com os nossos pecados. Pensemos no filho pródigo que, quando decide voltar para o pai, pensa no que lhe deve dizer, mas o pai não o deixa falar, abraça-o (cf. Lc 15, 17-24). Assim faz Jesus conosco. «Pai, cometi tantos pecados…» — «Mas Ele ficará contente se tu fores: abraça-te com tanto amor! Não tenhas receio».

Queridos irmãos e irmãs, pensei muitas vezes no modo como a Igreja pode tornar mais evidente a sua missão de ser testemunha da misericórdia. É um caminho que começa com uma conversão espiritual; e devemos percorrer este caminho. Por isso decidi proclamar um Jubileu extraordinário que tenha no seu centro a misericórdia de Deus. Será um Ano Santo da Misericórdia. Queremos vivê-lo à luz da palavra do Senhor: «Sede misericordiosos como o Pai» (cf. Lc 6, 36). E isto sobretudo para os confessores! Muita misericórdia!

Este Ano Santo terá início na próxima solenidade da Imaculada Conceição e concluir-se-á a 20 de Novembro de 2016, Domingo de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo e rosto vivo da misericórdia do Pai. Confio a organização deste Jubileu ao Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, para que o possa animar como uma nova etapa do caminho da Igreja na sua missão de levar o Evangelho da misericórdia a todas as pessoas.

Estou certo de que toda a Igreja, que tem tanta necessidade de receber misericórdia, porque somos pecadores, poderá encontrar neste Jubileu a alegria para redescobrir e tornar fecunda a misericórdia de Deus, com a qual cada um de nós está chamado a dar conforto a todos os homens e mulheres do nosso tempo. Não nos esqueçamos de que Deus perdoa tudo, e Deus perdoa sempre. Não nos cansemos de pedir perdão. Desde já confiamos este Ano à Mãe da Misericórdia, para que dirija para nós o seu olhar e vele sobre o nosso caminho: o nosso caminho penitencial, o nosso caminho com o coração aberto, durante um ano, para receber a indulgência de Deus, para receber a misericórdia de Deus.

Família é família -17/11/14

Discurso aos participantes do encontro internacional sobre a complementaridade entre homem e mulher promovido pela congregação pela doutrina da fé (17/11/2014).

Antes de tudo, gostaria de compartilhar convosco uma reflexão a propósito do título do vosso Diálogo. «Complementaridade»: trata-se de uma palavra preciosa, com múltiplos valores. É possível referir-se a diversas situações, nas quais um elemento completa o outro ou supre a uma sua carência. No entanto, complementaridade é muito mais que isto. Os cristãos encontram o seu significado já na primeira Carta de são Paulo aos Coríntios, onde o apóstolo afirma que o Espírito conferiu a cada um diferentes dons, de tal forma que, assim como os membros do corpo humano se completam para o bem do organismo inteiro, também os dons de cada um podem contribuir para o bem de todos (cf. 1 Cor 12). Ponderar acerca da complementaridade significa simplesmente meditar sobre as formas de harmonia dinâmica que se encontram no cerne de toda a Criação. Eis a palavra-chave: harmonia. O Criador fez todas as formas de complementaridade para que o Espírito Santo, que é o Autor da harmonia, realize esta harmonia.

Oportunamente, congregastes-vos para este Diálogo internacional a fim de aprofundar o tema da complementaridade entre homem e mulher. Com efeito, esta complementaridade encontra-se no fundamento do matrimônio e da família, que constitui a primeira escola onde aprendemos a valorizar os nossos dons e dos outros, e onde começamos a descobrir a arte de viver juntos. Para a maioria de nós, a família constitui o lugar principal onde começar a «respirar» valores e ideais, assim como a realizar a nossa potencialidade de virtude e de caridade. Ao mesmo tempo, como sabemos, as famílias são um lugar de tensões: entre egoísmo e altruísmo, entre razão e paixão, entre desejos imediatos e finalidades a longo prazo, etc. Contudo, as famílias proporcionam inclusive o âmbito onde resolver tais tensões: e isto é importante! Quando falamos de complementaridade entre homem e mulher neste contexto, não podemos confundir tal termo com a ideia simplista segundo a qual todas as funções e relacionamentos de ambos os sexos estão fechados num modelo único e estático. A complementaridade adquire numerosas formas, porque cada homem, cada mulher, oferece a contribuição pessoal que lhe é própria para o matrimónio e para a educação dos filhos. A sua riqueza pessoal, o seu carisma pessoal, e desta maneira a complementaridade adquire uma grande riqueza. E não é apenas um bem, mas também uma beleza.

Na nossa época, o matrimônio e a família estão em crise. Vivemos numa cultura do provisório, na qual cada vez mais pessoas renunciam ao matrimônio como compromisso público. Esta revolução nos costumes e na moral agitou com frequência a «bandeira da liberdade», mas na realidade trouxe devastação espiritual e material a numerosos seres humanos, de maneira especial aos mais vulneráveis. É cada vez mais evidente que o declínio da cultura do matrimônio está associado a um aumento de pobreza e a uma série de numerosos outros problemas sociais que atingem em medida desproporcional as mulheres, as crianças e os idosos. E são sempre eles quem mais sofre nesta crise (…).

Durante estes dias, enquanto meditais acerca da complementaridade entre homem e mulher, exorto-vos a dar evidência a mais uma verdade, relativa ao matrimônio: ou seja, que o compromisso definitivo em relação à solidariedade, à fidelidade e ao amor fecundo corresponde às aspirações mais profundas do coração humano. Pensemos, acima de tudo, nos jovens que representam o futuro: é importante que eles não se deixem seduzir pela mentalidade prejudicial do provisório, sejam revolucionários e tenham a coragem de procurar um amor vigoroso e duradouro, isto é, de ir contra a corrente: é necessário agir assim! A este propósito, gostaria de vos dizer algo: não podemos cair na armadilha de ser qualificados com conceitos ideológicos. A família é uma realidade antropológica e, consequentemente, social, cultural, etc. Não a podemos qualificar com conceitos de natureza ideológica, que só são válidos num determinado momento da história, e depois caducam. Hoje em dia não se pode falar de família conservadora, nem de família progressista: a família é família! Não vos deixeis qualificar por este ou por outros conceitos de natureza ideológica. A família possui uma força em si mesma (…).

Acreditar no perdão 18/08/2014

Parte da homilia do papa Francisco durante a Missa pela Paz e Reconciliação (18/08/2014), celebrada na na Catedral de Myeong-dong (Seul), durante a visita à República da Coreia.

No Evangelho de hoje, Pedro pergunta ao Senhor: «Quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?» O Senhor responde: «Digo-te, não até sete vezes, mas até setenta vezes sete» (Mt 18, 21-22). Estas palavras tocam o coração da mensagem de reconciliação e de paz indicada por Jesus. Obedientes ao seu mandamento, pedimos diariamente ao nosso Pai do Céu que perdoe os nossos pecados, «assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido». Mas, se não estivéssemos prontos a fazer o mesmo, como poderíamos honestamente rezar pela paz e a reconciliação?

Jesus pede-nos para acreditar que o perdão é a porta que leva à reconciliação. Quando nos manda perdoar aos nossos irmãos sem qualquer reserva, pede-nos para fazer algo de totalmente radical, mas dá-nos também a graça de o cumprir. Aquilo que, visto duma perspectiva humana, parece ser impossível, impraticável e às vezes até repugnante, Jesus torna-o possível e frutuoso com a força infinita da sua cruz. A cruz de Cristo revela o poder que Deus tem de superar toda a divisão, curar toda a ferida e restaurar os vínculos originais de amor fraterno.

Igreja e pedofilia 07/07/2014

Homilia do Papa Francisco na missa do dia 07/07/2014, na capela Santa Marta, com algumas vítimas de abusos sexuais por parte do clero.

A imagem de Pedro, cujo olhar, vendo Jesus sair desta sessão de duro interrogatório [no Sinédrio], se cruza com Jesus e chora, vem-me hoje ao coração ao cruzar o vosso olhar, o olhar de tantos homens e mulheres, meninos e meninas; sinto o olhar de Jesus e peço a graça do seu chorar.

A graça da Igreja chorar e fazer reparação pelos seus filhos e filhas que traíram a sua missão, que abusaram de pessoas inocentes com os seus desvarios. E hoje sinto-me agradecido a vós por terdes vindo aqui.

Há tempos que sinto no coração um profundo pesar, vendo um sofrimento escondido durante tanto tempo, dissimulado numa cumplicidade que não encontra explicação, até que alguém se deu conta de que Jesus olhava e depois outra pessoa notou o mesmo e mais outra se apercebeu disso mesmo… e animaram-se a sustentar este olhar. E aqueles poucos que começaram a chorar, contagiaram a nossa consciência fazendo-a chorar por este crime e pecado grave. Sinto no meu coração angústia e pesar pelo fato de alguns padres e bispos terem violado a inocência de menores – e a sua própria vocação sacerdotal –, abusando deles sexualmente. Trata-se de algo mais que atos ignóbeis; é uma espécie de culto sacrílego, porque estes meninos e meninas tinham sido confiados ao carisma sacerdotal para os conduzir a Deus e eles sacrificaram-nos ao ídolo da sua concupiscência. Profanaram a própria imagem de Deus, pois foi à imagem d’Ele que fomos criados. A infância – todos nós o sabemos – é um tesouro. O coração jovem, tão aberto e cheio de confiança, contempla os mistérios do amor de Deus e mostra-se disponível de uma forma única para ser alimentado na fé. Hoje, o coração da Igreja contempla os olhos de Jesus nestes meninos e meninas e quer chorar. Pede a graça de chorar perante estes atos execráveis ​de abuso perpetrados contra os menores; atos que deixaram cicatrizes para a vida inteira.

Sei que as vossas feridas são uma fonte de profunda e muitas vezes implacável pena emotiva e espiritual e até mesmo de desespero. Muitos daqueles que sofreram esta experiência, procuraram compensações na dependência. Outros experimentaram sérios distúrbios nas relações com pais, cônjuges e filhos. Particularmente grave foi o sofrimento das famílias, já que o dano provocado ​​pelo abuso atinge estas relações vitais.

Alguns sofreram mesmo a terrível tragédia do suicídio de um ente querido. A morte destes filhos amados de Deus pesa sobre o coração e sobre a minha consciência e a de toda a Igreja. A estas famílias, apresento os meus sentimentos de pesar e de amor. Jesus, torturado e interrogado com a paixão do ódio, é levado para outro lugar e olha; olha para um dos seus – aquele que O renegara – e fá-lo chorar. Pedimos esta graça, juntamente com a da reparação.

Os pecados de abuso sexual contra menores por parte de membros do clero têm um efeito devastador sobre a fé e a esperança em Deus. Alguns há que se agarraram à fé, enquanto, a outros, a traição e o abandono corroeram a sua fé em Deus. A vossa presença aqui fala do milagre da esperança que prevalece sobre a mais profunda escuridão. É, sem dúvida, um sinal da misericórdia de Deus o fato de termos hoje esta oportunidade de nos encontrarmos, de adorar o Senhor, de nos fixarmos olhos nos olhos  e de buscar a graça da reconciliação.

Diante de Deus e do seu povo, sinto-me profundamente consternado pelos pecados e os crimes graves de abuso sexual cometidos por membros do clero contra vós e humildemente peço perdão.

Peço perdão também pelos pecados de omissão por parte dos responsáveis da Igreja que não responderam de forma adequada às denúncias de abuso apresentadas por familiares e por aqueles que foram vítimas de abuso. Isto causou ainda ulterior sofrimento àqueles que foram abusados e pôs em perigo outros menores que se encontravam em situação de risco.

Por outro lado, a coragem que vós e outros demostraram fazendo emergir a verdade foi um serviço de amor, projetando luz sobre uma terrível obscuridade na vida da Igreja. Não há lugar, no ministério da Igreja, para aqueles que cometem abusos sexuais; e comprometo-me a não tolerar o dano infligido a um menor por quem quer que seja, independentemente do seu estado clerical. Todos os bispos devem exercer o seu serviço de pastores com o máximo cuidado para salvaguardar a protecção dos menores, e prestarão contas desta responsabilidade.

Vale, para todos nós, o conselho que Jesus deu para quantos dão escândalo: …a mó do moinho e mar (cf. Mt 18, 6).

Além disso continuaremos a vigiar sobre a preparação para o sacerdócio. Conto com os membros da Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores, todos os menores independentemente da religião a que pertençam: são os pequeninos que o Senhor olha com amor.

Preciso que me ajudem a fazer com que possamos dispor das melhores políticas e procedimentos na Igreja universal para a proteção dos menores e para a habilitação de pessoal da Igreja na realização de tais políticas e procedimentos. Devemos fazer tudo o que for possível para garantir que tais pecados não mais se repitam na Igreja.

Irmãos e irmãs, sendo todos membros da família de Deus, estamos chamados a entrar na dinâmica da misericórdia. O Senhor Jesus, nosso Salvador, é o exemplo supremo, o inocente que carregou os nossos pecados na cruz. Reconciliarmo-nos é a própria essência da nossa identidade comum de seguidores de Cristo. Voltando-nos para Ele, acompanhados pela nossa Mãe Santíssima aos pés da cruz, peçamos a graça da reconciliação com todo o povo de Deus. A doce intercessão de Nossa Senhora da Terna Misericórdia é uma fonte inesgotável de ajuda no nosso percurso de cura.

Vós e todos aqueles que sofreram abusos por parte de membros do clero, sois amados por Deus. Rezo para que, quanto resta da obscuridade que vos atingiu, seja curado pelo abraço do Menino Jesus e, ao dano que vos foi causado, suceda uma fé e uma alegria renovadas.

Obrigado por este encontro e, por favor, rezai por mim, para que os olhos do meu coração vejam sempre com clareza o caminho do amor misericordioso, e Deus me conceda a coragem de seguir este caminho para o bem dos menores.

Jesus sai de um julgamento injusto, de um interrogatório cruel e fixa os olhos de Pedro e Pedro chora. Nós pedimos-Lhe que nos olhe, que nos deixemos olhar e possamos chorar, e que nos dê a graça da vergonha, para podermos – como Pedro, quarenta dias mais tarde – responder-Lhe: «Tu sabes que Te amamos» e ouvir a sua voz: «Volta ao teu caminho e apascenta as minhas ovelhas e – acrescento eu – não permitas que algum lobo entre no rebanho».