Batismo em nome do Senhor

Texto de P. Mauro Odorissio, CP

Desde sempre a água foi tida como portadora de sublimes mensagens.

Durante muito tempo a humanidade se viu forçada a não se afastar dela para poder viver. Os grupos humanos se condensavam à beira dos rios, da fontes. Conseguiram se afastar deles quando descobriram que era possível  encontra-las ou escavando poços, ou conseguindo-a por meio de aquedutos cujas ruínas romanas que atravessam enormes descampados e longas distâncias são motivos de admiração.

Tais construções, com dezenas de quilômetros e em arcadas sobrepostas, levavam água de pontos mais altos para outros mais baixos, mas distantes. Era necessária muita técnica para fazer com que o líquido fluísse suavemente, vencendo terrenos com acentuados aclives e declives, alcançando populações longínquas. Depois, com a descoberta da teoria dos vasos comunicantes, descobriu-se que o peso do líquido em fontes mais altas, podia fazer que ela vencesse ladeiras.

Mas a água que propicia vida, também pode ocasionar a morte. Estes dois extremos, e das mais variadas maneiras, como bem estar, higiene podem por ela serem ocasionados. Isto fez com que muitos povos se servissem dela em suas celebrações religiosas. Assim, o cristianismo herdou do judaísmo o uso dele em suas grandes celebrações, como o batismo. O batismo cristão, porém,  se serve da água em sentido mais amplo e bem mais aprofundadamente. Vai muito além do sentido puramente purificatório.

Forçados a deixar Jerusalém, os cristãos não partiram de mãos vazias, pois os corações estavam repletos de Cristo: evangelizavam pessoas, culturas, ambientes, atividade. Tudo e todos clamavam – como continuam clamando – pela redenção universal (Rm 8,19-25). Assim, se concretizava a ordem do Senhor: “Recebereis o poder do Espírito Santo que virá sobre vós e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, na Judéia e na Samaria, até os confins do mundo” (At 1,8).

Também a difícil Samaria, foi evangelizada por Tiago (At 8,4-8).  Lucas globaliza ou generaliza o acontecimento: pelo fato de samaritanos terem acatado o Evangelho, ele afirma que a Samaria “acolhera a Palavra de Deus” (At 8,14). Paulo, também, usa o mesmo recurso generalizador: ao comunicar apenas o engajamento dos irmãos na campanha em prol dos cristãos necessitados na Judéia, diz que “toda a Acaia estava preparada” (2Cor 9,2).

A Igreja em Jerusalém sabendo o que acontecera na Samaria, enviou Pedro e João, não com a intenção de criar vínculos hierárquicos de superioridade e dependência, ou de controlar a fidelidade e a ortodoxia dos novos cristãos, mas para ativar os liames de comunhão e de fraternidade entre as duas comunidades (At 8,14).

Ao chegarem na Samaria, os dois Apóstolos oraram pelos membros da comunidade para que recebessem o Espírito Santo, pois, “alguns deles” haviam recebido só o batismo “no nome do Senhor”. Com a imposição das mãos, receberam o Espírito Santo (At 8,15-17). Esses “alguns”, provavelmente, estavam encarando o batismo como algo “mágico”, algo que produziria os frutos pela simples administração ritual do sacramento. E batismo não é só rito, só celebração. Tanto que os Apóstolos vincularam a imposição das mãos (v. 17) à oração (v. 15).

At 19,1-6 apresenta algo paralelo: em Éfeso, alguns discípulos haviam recebido só o batismo de João, o de conversão dos pecados. Desconheciam o Espírito Santo. Foram batizados “em nome do Senhor” e, com a imposição das mãos, receberam o Espírito Santo.

O batismo, então, está para o perdão dos pecados, e o dom do Espírito Santo e a imposição das mãos se vincula à oração. Assim, os samaritanos batizados em nome do Senhor, pela imposição das mãos, ficaram em igualdade e em comunhão com a igreja de Jerusalém e deveriam “viver o batismo”. Pelo Espírito Santo receberam como que uma alma nova e deveriam viver essa vida.

Essas passagens nos devem levar à reflexão de nosso compromisso batismal: sermos comunhão e compromisso eclesial, pois fomos batizado para formarmos um só corpo (1Cor 12,12-13), para que libertos do mal, vivamos nova vida recebida e sermos os apóstolos do Senhor.

Isto sem olvidar que o batismo não é puro rito mágico que transforma, de per si, o batizando. Este, com a graça batismal, deverá ir concretizado o significado da água que tanto mata como propicia a vida; o sacramento, em Cristo, fará com que o cristão caminhe constantemente morrendo no pecado, na imperfeição, para ir ressuscitando diuturnamente, na nova vida propiciada por Cristo. Mas é importante assumir integralmente a palavra diuturnamente; significa morrer e ressuscitar em Cristo continuamente, sem interrupção. Tem o sentido de todos os dias e a cada instante do dia.

Assim, como a água possibilita as pessoas saírem de estado de menos para mais pureza, sempre no Senhor, o seu seguidor deve ir deixando o mal para traz e adentrando-se, crescentemente no estado de santidade.

Tudo pode se sintetizar nesta afirmação: o batismo é um rito que, como tal, nada produz; não existe transformação mágica. Mais, ainda: tem tempo, lugar e hora onde acontece. Mas, como sacramento, ele é um caminhar diuturnamente, no Senhor, deixando para traz a imperfeição e abraçando a proporcionada pela graça divina. É um ser sempre perfeito como o Pai Celeste o é (Mt 5,48).

Batismo, na realidade é sempre, a cada instante, crescentemente e sem interrupção ir morrendo no mal que se abandona e ir nascendo e crescendo, sem interrupção, na santidade, na perfeição.