Avareza

Texto de P. Alcides Marques, CP

A avareza se caracteriza pelo apego descontrolado e demasiado ao dinheiro e às coisas materiais. Uma coisa é ter o dinheiro como um meio, um instrumento, para a aquisição do que é essencial e importante para a vida. Outra é fazer do dinheiro uma finalidade em si mesma; é a história de ter por ter. O avarento vive em função do dinheiro e para a aquisição de sempre mais dinheiro, não se importando com os meios para adquiri-lo. A onda de corrupção que assola as nossas sociedades é um dos sinais mais visíveis de como o dinheiro pode se transformar num objetivo de vida. Infelizmente.

O pecado capital da avareza é o impulso que leva a pessoa a fazer com que tudo na vida gire ao redor do dinheiro. O avarento, sem dúvida, é um ganancioso. O ganancioso é movido pelo impulso de sempre ganhar (dinheiro); sua razão de viver é ganhar sempre e sempre mais. É a lógica do “tirar vantagem em tudo” (lei de Gerson). Jesus assim se expressou sobre uma pessoa gananciosa: “Atenção, Tenham cuidado com qualquer tipo de ganância. Porque mesmo que alguém tenha muitas coisas, a sua vida não depende de seus bens” (Lc 12,15). O que o Mestre de Nazaré nos ensina é que a vida vale mais do que dinheiro e bens. Ele não nega a importância dos mesmos, mas contesta toda possível escravização em função deles. A vida vale mais.

Algumas pessoas gostam de fazer uma distinção entre ganância e ambição. Alegam que as mesmas não são sinônimas, como muitas vezes se imagina, já que ambição diz respeito a um forte empenho para alcançar determinados objetivos. Neste caso, ganância seria uma ideia negativa (ganhar sempre sem medir as consequências) e ambição, uma ideia positiva (determinação, empenho) como: um estudante que tem a ambição de ser um aluno brilhante; um jogador de futebol que tem a ambição de ser o titular da posição e assim por diante. No entanto, o melhor é considerar a ambição uma ideia neutra (nem positiva nem negativa). Existe a ambição boa, mas existe também a ambição má. O problema não está na ambição, mas em seus objetivos.

A carta aos hebreus oferece uma ótima dica: “Que a conduta de vocês não seja inspirada pelo amor ao dinheiro. Cada um fique satisfeito com o que tem, pois Deus disse: ‘Eu nunca deixarei você, nunca o abandonarei’”. (Hb 13,5). Podemos até desejar e buscar ter mais para poder adquirir o necessário para uma vida digna. No entanto, devemos orientar nossa satisfação (felicidade) em Deus e não em coisas materiais. Deveríamos dizer sempre: “eu sou feliz com o que tenho; e quando procuro mais, procuro por julgar importante para o viver e não para ser mais feliz”. Coloquemos esta passagem em paralelo com o que disse Jesus: “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

É preciso sempre lembrar que a avareza é um pecado capital, ou seja, é um pecado gerador de tantos outros pecados. Observe a política, o mundo do futebol, dos concursos de miss; observe também os ambientes de trabalho (tanto na iniciativa privada quanto no serviço público); as famílias; as igrejas. Observe como em todo o momento o dinheiro se apresenta como uma tentação tremendamente destrutiva. Qual o lugar do amor, da solidariedade, da generosidade? Somos capazes de perder dinheiro para ganhar pessoas ou, ao contrário, perdemos pessoas para ganhar dinheiro? As repartições de herança são um exemplo quase sempre negativo. Os herdeiros mais se dividem do que dividem os bens deixados. Lamentável.

A vigilância deve ser constante porque ninguém está livre de ser dominado pelo dinheiro. O dinheiro tende a ser um deus. E viver em sua dependência seria uma idolatria, como nos ensina São Paulo: “Estejam certos de uma coisa: nenhuma pessoa imoral, impura ou avarenta – pois a avareza é uma idolatria – jamais terá herança no reino de Cristo e de Deus” (Ef 5,5). Que a graça de Deus nos ajude a nos libertar sempre deste mal.