Sofrimento

Texto de P. Mauro Odorissio, CP

Pediram-me que tecesse alguma consideração sobre o sofrimento. Mas o que dizer de algo que não tem existência própria? Ontologicamente, isto é, como ser, ele não existe. Alguém o viu andando por ai? Existe o sofredor, o que interna ou externamente é por ele envolvido. E são tantos que merecem atenção.

Acredito ser bastante válido começar a reflexão com o exemplo da “luzinha vermelha” no painel do carro. Na pior das hipóteses, ela é ótimo sinal de alerta. Pode não ser agradável, mas é benfazeja. Assim, é abençoada aquela dor desagradável que nos leva a descobrir algo sério em nosso interior. Continue lendo “Sofrimento”

Pecados capitais

Texto de P. Alcides Marques, CP

A tradição católica fala em sete pecados capitais: soberba (orgulho), avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça. A palavra “capital” vem do latim caput, que quer dizer cabeça. São capitais porque são os principais, os maiores, aqueles que dão origem a todos os outros pecados. Se você pensar bem, vai perceber que todos os possíveis pecados tem alguma raiz em um ou mais deles. O número sete é símbolo de plenitude, ou seja, os sete pecados capitais representam todos os pecados humanos. Não são explicitamente bíblicos, no sentido de que não há na Sagrada Escritura uma lista dos mesmos. No entanto, estão implícitos em várias passagens bíblicas.

Na origem mais remota da lista dos sete pecados capitais, está a classificação do grego Evágrio do Ponto (346-399), um monge cristão e asceta, que fez parte da comunidade monástica do Baixo Egito. O monge traçou as principais doenças espirituais que afligiam os monges, chamando-as de os oito males do corpo. Na lista de Evrágio havia oito vícios: gula, avareza, luxúria, ira, melancolia, acídia (preguiça espiritual), vaidade e orgulho.

A lista de Evágrio foi conhecida por outro monge São João Cassiano (360-435), que a divulgou no oriente, espalhando-a pelos reinos cristãos. Podemos dizer que São João Cassiano foi o divulgador desta lista.

No século VI, o papa Gregório Magno (540-604) ao tomar conhecimento da lista, adaptou-a para o Ocidente. Melhor dizendo: adaptou-a para os seres humanos em geral. Com isso, reduziu a lista de oito para sete. Juntou a vaidade ao orgulho e adicionou a inveja. E o mais importante: chamou esta lista de sete pecados capitais, sendo eles: orgulho, inveja, ira, melancolia, avareza, gula e luxúria.

Os sete pecados capitais foram então bastante difundidos pelo mundo cristão medieval. Várias listas foram elaboradas por teólogos. O dominicano São Tomás de Aquino (1225-1274) fez um grande estudo sobre os sete pecados, dando-lhes princípios filosóficos inspirados na filosofia grega, particularmente em Aristóteles. Na sua lista, ele enumera como os sete pecados capitais: vaidade, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e acídia (preguiça). O orgulho está fora da lista porque, segundo Santo Tomás, este pecado está acima e é o fundamento de todos os outros.

No século XVII, a igreja subtraiu oficialmente da lista do papa Gregório Magno a melancolia, por considerá-la mais como doença, trocando-a pela preguiça. Hoje, a melancolia recebe outro nome: depressão.

Os monges antigos (Evágrio e João Cassiano) falavam mais em doenças espirituais ou vícios. Hoje, precisamos entender os pecados capitais mais neste sentido: são pecados e são vícios. Se repararmos bem, as nossas tendências negativas sempre apontam para algum pecado capital. Essas tendências não são pecados e nem levam necessariamente ao vício, mas são impulsionadoras dos mesmos. Por isso mesmo, precisamos sempre estar vigilantes para que as mesmas não se tornem vícios. A vigilância deve ser constante e ninguém está automaticamente livre delas.

O Novo Testamento tem listas de pecados (cf. Rom 1,28-31) e isso significa que a comunidade cristã tem o direito de considerar a luta contra o pecado a partir de uma lista que sintetize melhor os perigos que enfrentamos. Tal é o sentido de conhecermos os sete pecados capitais.

Donde, onde, aonde

Texto de P. Mauro Odorissio, CP

Mesmo quem não é muito afeito à reflexão tem consciência do lugar onde se situa; vê-se alguém localizado num determinado espaço. A isto chamamos de onde. É algo bem determinado; em sua precisão, o que ocupamos, não é condividido com mais ninguém. É impossível outra pessoa partilhar daquele mesmo lugar. Ela pode estar bem perto, mas o lugar que ocupamos é só nosso.

Daquele ponto existencial é possível que a pessoa, se dotada de um mínimo de prendas reflexivas, descubra que o tal onde foi precedido de um donde. Sabe que antes esteve em lugar distinto, donde veio. Continue lendo “Donde, onde, aonde”

A construção da vida

Texto de P. Alcides Marques, CP

Um filme alemão (1998), chamado no Brasil de “Corra, Lola, Corra”, pode ser utilizado para uma reflexão sobre a vida humana e maneira como nós a construímos. Mesmo que você não tenha assistido ao filme, vai a entender a nossa linha de argumentação. Um breve resumo: Lola tem 20 minutos para conseguir uma alta quantia em dinheiro para salvar a vida de seu namorado das mãos do chefe de uma quadrilha. O namorado de Lola foi encarregado pela quadrilha de transportar o dinheiro numa sacola. Acontece que, por uma distração sua, esquece no metrô e a sacola fica em poder de um mendigo. Ele então fica diante do seguinte desafio: ou arruma o dinheiro em 20 minutos ou morre. Continue lendo “A construção da vida”

Todos os Santos

Texto de P. Mauro Odorissio, CP

Domingo próximo, em comunhão com a Igreja no Brasil, estaremos celebrando a Festa de Todos os Santos. Como Igreja Peregrina, a que palmilha neste mundo, seremos comunhão com a Definitiva. Alegrar-nos-emos com os irmãos que já estão na comunhão com o Pai, na chamada Igreja Gloriosa.

É de se antecipar: não se trata de trocas interesseiras entre “os de lá”, aguardando louvores, velas e flores, e “os de cá”, esperando graças, bênçãos e favores. A vida religiosa não é barganha comercial, e sim, comunhão e fraternidade. “Os de lá” sendo modelo, protótipo e comunhão, e “os de cá”, procurando exemplo, luzes e incentivo. S. Agostinho, ante a multidão de bem-aventurados oriundos de todos os povos, de todas as idades, de todas as condições sociais e culturais, como era próprio dele, sintetizou lapidarmente: “si isti et istae, cur no ego?” = “se estes e estas, por que não eu?”. E, contando com a graça divina, assim como com o estímulo de tantos irmãos e irmãs, chegou aos píncaros da santidade. Continue lendo “Todos os Santos”

Novembro

NOVIDADE!!! Vamos apresentar, em nossos vídeos, uma série de estudos bíblicos com o Pe Mauro Odorissio, CP. Um vídeo por semana. Assistam.

aparecidaNo dia 27, iniciamos o primeiro domingo do Advento. No ciclo litúrgico, retomaremos o ano A (Evangelista Mateus).

Desde o dia 12 de outubro deste ano até o dia 11 de outubro de 2017, a Igreja no Brasil, por iniciativa da CNBB, está celebrando o ano mariano nacional. A razão principal deste ano mariano é celebrar os 300 anos da aparição da imagem de Nossa Senhora Aparecida.

Destro, canhoto e ambidestro: diversidade

Texto de P. Mauro Odorissio, cp

A velha lógica aristotélica sempre ensinou que, antes de iniciar um debate ou qualquer estudo, é importante definir os termos. Com eles definidos, muitos equívocos são evitados e, praticamente, meio caminho fica vencido.

Nosso cabeçalho traz três termos que merecem um mínimo de atenção. Comecemos com o primeiro: DESTRO. Com ele queremos indicar não uma pessoa capaz, hábil, desembaraçada, perspicaz, mas sim a que usa mais facilmente a mão ou o pé direito. É destro o que se serve naturalmente da mão direita para comer, para fazer algum trabalho. Se isso acontece com a mão esquerda, ele é canhoto. Porém, não desastrado, desajeitado, inábil. No momento não tomamos a palavra nessa acepção. Continue lendo “Destro, canhoto e ambidestro: diversidade”