Pastores X agricultores

Texto de P. Mauro Odorissio, CP

Estamos celebrando o Mistério Pascal que é a concretização da páscoa judaica. Saindo da escravidão do Egito, os judeus celebraram a páscoa e se colocaram a caminho da Terra Prometida. Ao celebrá-la, anualmente, no decurso da história, eles iam concretizando a liberdade conquistada então. Porém, jamais se afirmará sobejamente que a celebração judaica é imagem da definitiva selada com todos os povos, por meio de Cristo: é ele a nossa páscoa, o nosso Cordeiro imolado (1Cor 5,7). Continue lendo “Pastores X agricultores”

Esmola, oração e jejum

Texto de P. Mauro Odorissio, CP

A palavra tripé tanto pode significar o aparelho com três pés, o qual dá condições para fotografar, filmar, contemplar astros e planetas com melhor precisão, como o conjunto de coisas distintas que formam um todo harmonioso.  Assim, a esmola, a oração e o jejum formam um conjunto virtuoso que deve, não só estar em comunhão entre si, como em harmonia ontológica, a saber, entre o interior, o constitutivo da pessoa e o seu exterior, a parte operativa. Estas três virtudes são basilares, quer na espiritualidade do Primeiro, quer na do Novo Testamento. Elas mereceram considerações por parte de Jesus e de todos. Continue lendo “Esmola, oração e jejum”

Lasciate ogni speranza

Texto de P. Mauro Odoríssio, CP

Uma reflexão em razão da morte de Umberto Eco (19 de fevereiro de 2016).

Ele é mais conhecido pela obra “O Nome da Rosa”. Mas tive a oportunidade de ler, também, “Em que creem os que não creem” que, em parte, contém correspondência epistolar entre ele e Cardeal Martini. A obra é recomendável para quem gosta de pensar, de refletir.

O intelectual italiano, na primeira carta, deseja saber como interpretar os “mil anos” que, segundo Apocalipse, seria o final do mundo. De antemão recordo: Milão parava quando Martini, que lá era arcebispo, fazia pronunciamentos. Todos sabiam que, daquele poço de cultura, só saía riqueza. Acrescento um dado que me é caro: o Cardeal, quando lecionava, foi reitor do Pontifício Instituto Bíblico de Roma, onde tive a ventura de me formar em exegese ou ciências bíblicas. Continue lendo “Lasciate ogni speranza”

Que eu veja de novo

Homilia do papa Francisco, na Basílica Vaticana, dia 04 de março de 2016, numa Celebração Penitencial.

«Que eu veja de novo» (Mc 10, 51): este é o pedido que queremos fazer hoje ao Senhor. Ver de novo, depois de os nossos pecados nos terem feito perder de vista o bem e desviar da beleza da nossa vocação, levando-nos a vagar longe da meta.

Este trecho do Evangelho possui um grande valor simbólico, porque cada um de nós se encontra na situação de Bartimeu. A sua cegueira levara-o à pobreza e a viver na periferia da cidade, dependendo em tudo dos outros. Também o pecado tem este efeito: empobrece-nos e isola-nos. É uma cegueira do espírito que impede de ver o essencial, fixar o olhar no amor que dá a vida; e, aos poucos, leva a deter-se no que é superficial até deixar insensíveis aos outros e ao bem. Quantas tentações têm a força de anuviar a vista do coração e torná-lo míope! Como é fácil e errado crer que a vida dependa do que se possui, do sucesso ou do aplauso que se recebe; que a economia seja feita apenas de lucro e consumo; que as pretensões próprias devam prevalecer sobre a responsabilidade social! Olhando apenas para o nosso eu, tornamo-nos cegos, amortecidos e fechados em nós mesmos, sem alegria e sem liberdade. É horrível!

Mas Jesus passa; passa, mas detém o passo: «parou», diz o Evangelho (v. 49). Então um frémito atravessa o coração, porque nos damos conta de ser contemplados pela Luz, por aquela Luz gentil que nos convida a não ficar fechados nas nossas cegueiras tenebrosas. A presença de Jesus perto de nós faz sentir que, longe d’Ele, falta-nos qualquer coisa importante: faz-nos sentir necessitados de salvação; e isto é o princípio da cura do coração. Depois, quando o desejo de ser curado ganha audácia, leva a rezar, a gritar, com força e insistência, por ajuda, como fez Bartimeu: «Jesus, Filho de David, tem misericórdia de mim!» (v. 47).

Amar quem? Como?

Texto de P. Mauro Odorissio, CP

Instinto inato leva animais se procurarem como macho e fêmea. Contudo, o encontro não se dá da mesma maneira com todos; entre eles existem comportamentos diferenciados. Para olhos menos críticos tudo é igual; mas não para os dos estudiosos. Sendo comportamentos diferenciados, algo os leva a tanto. Que é? Sintamos o desafio do questionamento. Não sejamos superficiais. Continue lendo “Amar quem? Como?”

Deus age sim

Texto de P. Alcides Marques, CP

Quando dissemos que Deus, ao criar o mundo, abdicou de sua plena onipotência em favor da criação, poderíamos levar as pessoas ao equivoco de considerar que Deus não age e não interfere na obra da criação. O testemunho da Sagrada Escritura – tanto o antigo testamento quanto o novo – vai de encontro a tal suposição. O que dissemos é que Deus não age na história humana à semelhança de um diretor de filme ou de novela que manipula as pessoas e acontecimentos a seu bel prazer. O Deus da Bíblia é nosso parceiro, um Deus que caminha conosco, que faz história. Continue lendo “Deus age sim”

Não permite porque não pode

Texto de P. Alcides Marques, CP

O livro “A cabana” teve (tem) como objetivo apresentar uma luz para o terrível problema do sofrimento. Entendemos que de fato trouxe uma luz, mas uma luz ainda muito obscura, insuficiente. A tese central do autor é que Deus permite o sofrimento porque através do mesmo – com a Sua graça – sempre vai buscar atingir algum propósito bom. A nossa dificuldade de acolher tal sugestão vem do sentido do verbo permitir. Quando dizemos que Deus permite, estamos subentendendo que Deus poderia evitar. Continue lendo “Não permite porque não pode”