Consolai o meu povo

Texto de P. Mauro Odorissio, CP

Na leitura do 2º Domingo do Advento, Isaías se diz enviado por Deus a consolar o povo que gramava dura escravidão na Babilônia. Há décadas, os judeus se viam sem futuro, fadados a perderem a própria identidade. Seriam assimilados por outros povos. Às vésperas de 539 a.C. foi dada missão ao profeta: “Consolai o meu povo, consolai-o… dizei em alta voz que sua servidão acabou…” (Is 40,1-2). Continue lendo “Consolai o meu povo”

Vivemos segundo a graça

Texto de P. Alcides Marques, CP

Todos nós vivemos sob a influência constante da graça de Deus. Em nossa existência concreta, nós não contamos somente com as nossas próprias forças, a nossa natureza humana. Além de nossa natureza, existe em nós algo de divino que marca, condiciona, incentiva a nossa liberdade. A esse algo de divino, que não faz parte de nossa natureza e que é, portanto, um presente de Deus, São Paulo Apóstolo denomina de graça. O cristão é aquele que vive segundo a graça, é que se deixa conduzir pelo impulso da graça. “E o pecado não vos dominará, porque não estais debaixo da Lei, mas sob a graça” (Rom 6,14). A pessoa carnal, ao contrário, é aquela que se deixa guiar pelos seus instintos, alguém que regride a uma condição animalesca. Continue lendo “Vivemos segundo a graça”

Atos ou atitude?

Texto de P. Alcides Marques, CP

O papa Pio XII, no distante ano de 1946, afirmou que o grande pecado de nosso tempo é a perda do sentido do pecado. Desde então, tal advertência vem sendo repetida por teólogos e papas. Recentemente foi o papa Francisco. A perda do sentido do pecado nada mais é do que uma espécie de aceitação de que não existe pecado objetivo, ou seja, não se tem mais clareza a respeito do que é ou do que não é pecado. E como não temos clareza, vivemos como se não existisse pecado. E assim se propaga em nosso meio uma espécie de relativismo moral. O cristianismo sempre afirmou que o pecado existe e que é através da consciência que podemos perceber a intensidade de sua presença em nossa vida. Continue lendo “Atos ou atitude?”

Família é família -17/11/14

Discurso aos participantes do encontro internacional sobre a complementaridade entre homem e mulher promovido pela congregação pela doutrina da fé (17/11/2014).

Antes de tudo, gostaria de compartilhar convosco uma reflexão a propósito do título do vosso Diálogo. «Complementaridade»: trata-se de uma palavra preciosa, com múltiplos valores. É possível referir-se a diversas situações, nas quais um elemento completa o outro ou supre a uma sua carência. No entanto, complementaridade é muito mais que isto. Os cristãos encontram o seu significado já na primeira Carta de são Paulo aos Coríntios, onde o apóstolo afirma que o Espírito conferiu a cada um diferentes dons, de tal forma que, assim como os membros do corpo humano se completam para o bem do organismo inteiro, também os dons de cada um podem contribuir para o bem de todos (cf. 1 Cor 12). Ponderar acerca da complementaridade significa simplesmente meditar sobre as formas de harmonia dinâmica que se encontram no cerne de toda a Criação. Eis a palavra-chave: harmonia. O Criador fez todas as formas de complementaridade para que o Espírito Santo, que é o Autor da harmonia, realize esta harmonia.

Oportunamente, congregastes-vos para este Diálogo internacional a fim de aprofundar o tema da complementaridade entre homem e mulher. Com efeito, esta complementaridade encontra-se no fundamento do matrimônio e da família, que constitui a primeira escola onde aprendemos a valorizar os nossos dons e dos outros, e onde começamos a descobrir a arte de viver juntos. Para a maioria de nós, a família constitui o lugar principal onde começar a «respirar» valores e ideais, assim como a realizar a nossa potencialidade de virtude e de caridade. Ao mesmo tempo, como sabemos, as famílias são um lugar de tensões: entre egoísmo e altruísmo, entre razão e paixão, entre desejos imediatos e finalidades a longo prazo, etc. Contudo, as famílias proporcionam inclusive o âmbito onde resolver tais tensões: e isto é importante! Quando falamos de complementaridade entre homem e mulher neste contexto, não podemos confundir tal termo com a ideia simplista segundo a qual todas as funções e relacionamentos de ambos os sexos estão fechados num modelo único e estático. A complementaridade adquire numerosas formas, porque cada homem, cada mulher, oferece a contribuição pessoal que lhe é própria para o matrimónio e para a educação dos filhos. A sua riqueza pessoal, o seu carisma pessoal, e desta maneira a complementaridade adquire uma grande riqueza. E não é apenas um bem, mas também uma beleza.

Na nossa época, o matrimônio e a família estão em crise. Vivemos numa cultura do provisório, na qual cada vez mais pessoas renunciam ao matrimônio como compromisso público. Esta revolução nos costumes e na moral agitou com frequência a «bandeira da liberdade», mas na realidade trouxe devastação espiritual e material a numerosos seres humanos, de maneira especial aos mais vulneráveis. É cada vez mais evidente que o declínio da cultura do matrimônio está associado a um aumento de pobreza e a uma série de numerosos outros problemas sociais que atingem em medida desproporcional as mulheres, as crianças e os idosos. E são sempre eles quem mais sofre nesta crise (…).

Durante estes dias, enquanto meditais acerca da complementaridade entre homem e mulher, exorto-vos a dar evidência a mais uma verdade, relativa ao matrimônio: ou seja, que o compromisso definitivo em relação à solidariedade, à fidelidade e ao amor fecundo corresponde às aspirações mais profundas do coração humano. Pensemos, acima de tudo, nos jovens que representam o futuro: é importante que eles não se deixem seduzir pela mentalidade prejudicial do provisório, sejam revolucionários e tenham a coragem de procurar um amor vigoroso e duradouro, isto é, de ir contra a corrente: é necessário agir assim! A este propósito, gostaria de vos dizer algo: não podemos cair na armadilha de ser qualificados com conceitos ideológicos. A família é uma realidade antropológica e, consequentemente, social, cultural, etc. Não a podemos qualificar com conceitos de natureza ideológica, que só são válidos num determinado momento da história, e depois caducam. Hoje em dia não se pode falar de família conservadora, nem de família progressista: a família é família! Não vos deixeis qualificar por este ou por outros conceitos de natureza ideológica. A família possui uma força em si mesma (…).

O Pai Nosso

Texto de P. Mauro Odorissio, CP

Seguramente os Anjos no céu se comovem ao ver pais ensinando o Pai Nosso aos filhinhos acomodados em seus colos. Devem se divertir ante as atrapalhadas infantis atropelando as palavras. Não há como de a corte angelical não se comover ante a pureza da prece oriunda de corações tão inocentes. Continue lendo “O Pai Nosso”

O amor é a nossa lei

Texto de P. Alcides Marques, CP

A essência do cristianismo não vem do cumprimento de leis. E não vem porque está alicerçado no amor. E onde há amor não podem prevalecer leis. É claro que, como qualquer grupo social, os cristãos organizados em igreja necessitam de normas, regulamentos, orientações. Não podemos nos esquecer de que as nossas comunidades são grupos sociais e que precisam funcionar bem. Não estamos propondo uma Igreja sem leis, mas uma maneira diferente de pensar a fé cristã e a vida a partir do que é realmente essencial. Continue lendo “O amor é a nossa lei”

Vivendo e aprendendo a jogar

Texto de P. Alcides Marques, CP

Nós não temos o controle da nossa vida. Por mais que esta constatação seja difícil de digerir, é assim que acontece. Quer queiramos, quer não. E feliz daquele que o quanto antes puder constatar e reconhecer isso. Digo o quanto antes, porque uma das grandes ilusões da nossa juventude e da vida adulta é exatamente a consciência de que podemos ser o que queremos, basta ter vontade e energia. Mas a vida real não é assim: mesmo tendo decisão, vontade e energia, as coisas podem não ser do jeito que queremos. E quase sempre não são. Continue lendo “Vivendo e aprendendo a jogar”

Trindade e igualdade

Texto de P. Alcides Marques, CP

A doutrina trinitária afirma a realidade de um Deus em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. O Deus cristão é um Deus-Comunidade. Não a partir de um determinado tempo, mas desde sempre. Desde sempre e para sempre Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. O interessante, no entanto, é que tal revelação revela também algo de nós mesmos, seres humanos. Se Deus é comunidade, nenhum de nós vai conseguir se realizar como pessoa sem que se entenda como parte de uma comunidade. Nós precisamos dos outros e os outros precisam de nós. Afinal, somos criados à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,27), que é Trindade.  Continue lendo “Trindade e igualdade”

Non me la faccio più

Texto de P. Mauro Odorissio, CP

18 de outubro: festa de S. Lucas. Numa solenidade como a de hoje, em 1775, ao saber da morte de S. Paulo da Cruz, Pio VI teria dito: “Oh! Beato lui” (feliz ele!). Exigiu que o Santo tivesse funeral solene às expensas pontifícias. Afirmou que o Venerando Ancião não poderia ter morrido em dia mais apropriado, pois S. Lucas foi o Evangelista “passiólogo”: sua teologia se fundamenta solidamente, como a de Paulo da Cruz, no Mistério Pascal: Morte e Ressurreição do Senhor! Continue lendo “Non me la faccio più”